quarta-feira, 29 de maio de 2013

A NECESSIDADE DA COMUNHÃO ENTRE OS SANTOS

Por Gilson Barbosa

Há diversos fatores que possuem o potencial de impedir a comunhão entre os seguidores de Cristo. Dentro de um contexto amplo temos o denominacionalismo. Sei de projeto de evangelismo interdenominacional que não deu certo por causa de usos e costumes. Os irmãos da igreja A eram “liberais”, e os irmãos da igreja B eram radicais, e não toleravam quem não fosse adepto dos usos e costumes. Pronto! Estava lançada a intolerância, discórdia e desunião interdenominacional.

Num contexto limitado (no convívio da igreja, por exemplo) temos a questão das personalidades ou temperamentos humano. Não é difícil nos relacionarmos bem com pessoas que se identificam conosco ou que são de temperamento moderado. O difícil mesmo é tolerar aquele que é egoísta, orgulhoso, de opiniões exclusivistas, “pavio curto”, desequilibrado, etc. Mas, como servos de Cristo temos que suportar essas pessoas. O Senhor Jesus ordenou que amássemos a todos. Não é tarefa fácil. 

Outro fator que dificulta a comunhão é quando há cumplicidade entre os membros da igreja. Isso é muito comum, principalmente, entre oficiais de igrejas administrada no sistema episcopal. A cumplicidade quase sempre é resultado de pecado oculto. Isso acontece, por exemplo, quando o ministério (a direção da igreja) resolve agir arbitrariamente em questões administrativas e os demais obreiros não podem nem devem sequer indagar a respeito das decisões tomadas. O certo é, que em determinadas situações não podemos nem devemos ter comunhão com aqueles que se dizem irmãos, mas querem nos englobar nos seus pecados. Lembro-me do axioma profético: Andarão dois juntos, se não houver entre eles acordo?

Afirmei na postagem anterior que pela graça do Senhor estamos em união com Cristo. O apóstolo Paulo disse aos colossenses que “a vida de cada um deles estava escondida com Cristo em Deus” (3:3). E se desfrutamos das graças de Cristo, que são Suas bênçãos espirituais, também gozamos da mesma comunhão com nossos irmãos nos mesmos dons e graças uns dos outros. Portanto, não deveria haver invejas, intrigas ou dissensões em nosso meio, pois devemos estar unidos uns aos outros em amor.

Se os irmãos da igreja de Corinto se aplicassem nisso não haveria divisão nela. Divisão movida por preferencias pessoais. Não se alegravam no fato de que a qualidade na mensagem dos seus pregadores era para deleite deles mesmos. Por isso algum deles afirmava: “Eu sou de Paulo”; o outro “Eu sou de Apolo”; o outro “Eu sou de Pedro”; e ainda outro “Eu sou de Cristo”. O apóstolo Paulo procura corrigir a distorção e afirma que devem usufruir dos privilégios mutuamente.

Portanto, ninguém se glorie nos homens; porque tudo é vosso; Seja Paulo, seja Apolo, seja Cefas, seja o mundo, seja a vida, seja a morte, seja o presente, seja o futuro; tudo é vosso, E vós de Cristo, e Cristo de Deus. (1 Coríntios 3:21-23).

Paulo começa dizendo que seja um pregador ou outro, os irmãos deveriam aproveitar o máximo da mensagem do Senhor por intermédio deles e se recrearem nisso, não preferindo um em desonra ao outro. E mais, seja o que for todos eles sofrem os efeitos das contingencias da vida, tais como a morte, o presente, o futuro, o mundo. Ninguém deve se considerar melhor ou pior que o outro, pois somos todos iguais, enfrentaremos as mesmas adversidades e estamos nos conduzindo ao mesmo final. Assim como somos de Cristo, e Cristo de Deus, todas as coisas são para nosso deleite espiritual. Em outras palavras, é quase uma obrigação termos comunhão uns com os outros e nos alegrarmos nesta realidade.

Na igreja visível de Cristo não deve haver individualidade. Tanto a edificação, consolação e exortação devem ter como objetivo o Corpo de Cristo e não o indivíduo em si; o gozo pela felicidade do outro, a tristeza pelo pecado de um irmão, a gentileza no trato com os mais simples, a ajuda social aos pobres, tudo isso deve ter como perspectiva o coletivo e não a individualidade.

E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores, querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo; até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo, para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente. Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, do qual todo o corpo, bem ajustado, e ligado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa operação de cada parte, faz o aumento do corpo, para sua edificação em amor. (Efésios 4:11-16)

O mundo de hoje incentiva o indivíduo na sua individualidade em detrimento da coletividade. Na nossa sociedade não há mais gentileza, cortesia ou educação. É cada um por si. O transito das grandes cidades, por exemplo, reflete este triste sentimento e a dura realidade. Porém, não deve ser assim entre os discípulos de Cristo. Note nos versículos acima que Paulo fala no plural. O desejo de Paulo é que os santos sejam aperfeiçoados, que cheguem à unidade da fé, que não sejam mais meninos inconstantes, que em Cristo cresçam em tudo. Não há espaço para o egoísmo, egocentrismo, exaltação e individualidade. Todos participam juntos e são edificados juntamente em amor.

O mesmo se dá quando um irmão peca. Todos na igreja deveriam sentir tristeza e pesar pelo seu pecado. Não podemos estar indiferente diante de uma situação de calamidade espiritual ou até mesmo social. Quantos que se apartam do irmão que pecou como se o transgressor fosse semelhante aos leprosos em Israel, quando na verdade deveríamos exortá-lo em amor. Outros veem seu irmão em dificuldade social, tais como ausência de veste ou alimentação, e possuindo condições nada fazem para ajuda-lo. O apóstolo Paulo escreveu que...

que, se um membro padece, todos os membros padecem com ele; e, se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele. (1 Coríntios 12:26)

Não adianta muito uma igreja se vangloriar de possuir todos os dons carismáticos se não há unidade no Corpo. Esta unidade subentende que todos os membros do Corpo de Cristo tenham igual cuidado uns pelos outros (I Coríntios 12:25). A individualidade possui ênfase mais na questão da função ministerial do que na prática acionária dos dons. Por isso o apóstolo continua dizendo:

Ora, vós sois o corpo de Cristo, e seus membros em particular. E a uns pôs Deus na igreja, primeiramente apóstolos, em segundo lugar profetas, em terceiro doutores, depois milagres, depois dons de curar, socorros, governos, variedades de línguas. (1 Coríntios 12:27-28)

Temos o dever de amar uns aos outros, particularmente e publicamente, e contribuirmos para o aproveitamento mútuo nos sentidos imaterial e material do homem – tanto o interior quanto o exterior. O fato é que devo servir de ânimo e conforto ao meu irmão nas suas múltiplas necessidades. É o que Paulo afirmou à igreja romana:

Porque desejo ver-vos, para vos comunicar algum dom espiritual, a fim de que sejais confortados; isto é, para que juntamente convosco eu seja consolado pela fé mútua, assim vossa como minha. Não quero, porém, irmãos, que ignoreis que muitas vezes propus ir ter convosco (mas até agora tenho sido impedido) para também ter entre vós algum fruto, como também entre os demais gentios. (Romanos 1:11-13)

Cada crente também é chamado para a mútua assistência nas questões espirituais, ministeriais, morais e até mesmo sociais. Está em foco, neste caso, o diálogo franco e aberto, feito com amor, sabedoria e muita, mas muita prudência. Por causa da queda do homem esse fator ficou quase totalmente perdido. É comum irmãos ficarem sabendo de questões íntimas de outros e espalharem maldosamente boatos na igreja local publicando os mesmos. As pessoas não são capazes de ouvir as dificuldades alheias e buscar aconselhar e orar pelos faltosos ou os que estão em desatino espiritual. Porém, ainda que estranho para muitos crentes, o conselho apostólico admite que os crentes exortem-se e edifiquem-se entre si dentro do convívio cristão. Isso não significa intrometer-se na vida do outro, mas procurar fortalecê-lo em Cristo, levando-o ao amadurecimento espiritual:

Por isso exortai-vos uns aos outros, e edificai-vos uns aos outros, como também o fazeis. E rogamo-vos, irmãos, que reconheçais os que trabalham entre vós e que presidem sobre vós no Senhor, e vos admoestam; e que os tenhais em grande estima e amor, por causa da sua obra. Tende paz entre vós. Rogamo-vos, também, irmãos, que admoesteis os desordeiros, consoleis os de pouco ânimo, sustenteis os fracos, e sejais pacientes para com todos. Vede que ninguém dê a outrem mal por mal, mas segui sempre o bem, tanto uns para com os outros, como para com todos. (I Tessalonicenses 5: 11-15)

Que o Senhor nos dê da sua graça para nos amarmos, apesar das inúmeras diferenças. A intolerância não é uma questão somente da sociedade não regenerada. Os servos do Senhor também tem se mostrado intolerantes a respeito de doutrinas, teologias, dogmas, hábitos, tradições religiosas, etc. Não significa que compactuo com a perversidade teológica em detrimento da ortodoxia, mas, que não posso depreciar, menosprezar e até mesmo odiar meu irmão só porque ele não pensa, não vive ou não age como eu.

Em Cristo,


Compartilhar:

terça-feira, 14 de maio de 2013

A DIFÍCIL COMUNHÃO COM CRISTO

Por Gilson Barbosa

Os psicoterapeutas modernos veem o individualismo positivamente. Dizem que o erro está no egoísmo, que seria um estágio de imaturidade emocional. É certo que em dado momento é bom ficar a só para refletir ou ponderar sobre certas questões. Porém, o cristianismo não incentiva a individualidade. O psicoterapeuta Flávio Gikovate afirmou que “a palavra individualidade tem conotação positiva, como a conquista de um estado de autonomia”. Eis aí o problema para os cristãos: a autonomia humana. A mutualidade é imprescindível no cristianismo.

Minha intenção é desenvolver a postagem em duas partes. Nesta parte pretendo falar da necessidade que temos de ter comunhão com o Deus Triuno.

Definição

Para que definamos corretamente o que é comunhão temos que considerar primeiramente seus dois sentidos: vertical e horizontal. Um depende do outro para ser eficaz em seu resultado. Não acredito que consigamos amar verdadeiramente aqueles irmãos “difíceis” no convívio cristão, se primeiro não tivermos comunhão com o Deus Triuno. Foi exatamente isso que disse o apóstolo João aos seus leitores:

“o que temos visto e ouvido anunciamos também a vós outros, para que vós, igualmente, mantenhais comunhão conosco. Ora, a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo”. (I João 1:2,3).

União e comunhão

Nesse momento é importante distinguir entre a nossa união com Cristo e nossa comunhão com Ele. A união com Cristo significa que fomos dados por Deus à ele desde a eternidade. Nossa união com Cristo é posicional. É denominada de união judicial ou legal. Tem haver com os seguintes aspectos: passado (fomos salvos), presente (estamos sendo salvos) e futuro (estaremos definitivamente salvos).

“As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão. Aquilo que meu Pai me deu é maior do que tudo; e da mão do Pai ninguém pode arrebatar”. (João 10:27-29);

“Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda a sorte de bênçãos espirituais nas regiões celestiais em Cristo, assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele” (Efésios 1:3,4).

Já a nossa comunhão com Cristo é algo paulatino, progressivo, metódico. A comunhão pode ser definida como “a participação comum em algo”. Se de fato fomos unidos a Cristo por Deus, devemos ter comunhão com Ele em suas graças, sofrimentos, morte, ressurreição e glória.

Elementos da comunhão com Cristo: graças, sofrimentos, morte, ressurreição e glória

As graças de Cristo trata-se das bênçãos espirituais proporcionadas por Ele aos seus escolhidos: “Porque todos temos recebidos da sua plenitude e graça sobre graça” (João 1:16). É o gozo que o fiel deve sentir em ser salvo por Cristo e servi-lo até o fim. Este fato nos obriga humilharmos e deixarmos ser supridos por Cristo em nossas necessidades espirituais. John Charles Ryle (o bispo Ryle), afirmou que está guardado em Cristo

                   “... como na casa do tesouro, um suprimento ilimitado de tudo quanto o pecador necessita, no tempo presente e na eternidade. Sua dádiva especial à igreja é o Espírito de vida, o qual, assim como uma grande raiz, transporta a seiva e o vigor espiritual de Cristo a todos os ramos que nele creem. Jesus Cristo é rico em misericórdia, graça, sabedoria, justiça, santificação e redenção”. (Meditações no Evangelho de João, p. 13).

Recebemos a graça de Cristo em nossas vidas, portanto, temos de estar ligado a Ele, desfrutando e compartilhando de sua graça as demais pessoas. Ter Cristo na vida é como “um grande achado”. Ele é a pérola de valor inestimável.

Se participar das graças ou virtudes de Cristo é o que todos querem, não acontece o mesmo com a participação nos Seus sofrimentos – que diga a teologia da prosperidade e o triunfalismo evangélico.  Ter comunhão com Cristo nos seus sofrimentos, na verdade, trata das implicações negativas em servir a Ele. A praga daninha do evangelho da prosperidade e do triunfalismo não se sustenta diante desta doutrina. Leia os versículos que seguem e reflita se eles deveriam adjetivar seus autores como “fracos”, “covardes”, “não espirituais”, “carnais”, ou se o que escreveram representa a verdade do evangelho de Cristo.

O apóstolo Paulo disse: “Agora, me regozijo nos meus sofrimentos por vós, e preencho o que resta das aflições de Cristo, na minha carne, a favor do seu corpo, que é a igreja (Colossenses 1:24). O apóstolo Pedro disse palavras mais contundentes ainda:

“Amados, não estranheis o fogo ardente que surge no meio de vós, destinado a provar-vos, como se alguma coisa extraordinária vos estivesse acontecendo; pelo contrário, alegrai-vos na medida em que sois co-participantes dos sofrimentos de Cristo, para que também, na revelação de sua glória, vos alegreis exultando. Se, pelo nome de Cristo, sois injuriados, bem-aventurados sois, porque sobre vós repousa o Espirito da glória de Deus. Não sofra, porém, nenhum de vós como assassino, ou ladrão, ou malfeitor, ou como quem se intromete em negócios de outrem; mas, se sofrer como cristão, não se envergonhe disso; antes, glorifique a Deus com esse nome.”  (I Pedro 4:12-16)

É óbvio que nenhum cristão gosta de sofrer, não somos uma espécie de masoquista. Mas, o sofrimento é parte da glória de Deus em nossas vidas. É difícil compreender isso, mas, é assim que Deus trabalha. A obra de Deus sempre avançou nas dificuldades, perseguições ou provações. Padecer por Cristo é uma honra, e não uma vergonha. O apóstolo Paulo, diferente do evangelho triunfalista que presenciamos em nossos dias, sabia que suas prisões, apedrejamentos, naufrágios, surras, fome, frio, enaltecia o evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo. Ele encorajou os irmãos filipenses que preservassem a unidade cristã na luta:

“Vivei, acima de tudo, por modo digno do evangelho de Cristo, para que, ou indo ver-vos ou estando ausente, ouça, no tocante a vos outros, que estais firmes em um só espírito, como uma só alma, lutando juntos pela fé evangélica; e que em nada estais intimidados pelos adversários. Pois o que é para eles prova evidente de perdição é, para vos outros, de salvação, e isto da parte de Deus. Porque vos foi concedida a graça de padecerdes por Cristo e não somente de crerdes nele, pois tendes o mesmo combate que vistes em mim e, ainda agora, ouvis que é o meu.” (Filipenses 1:27-30)

O terceiro elemento da comunhão com Cristo forma um par: morte e ressurreição. A morte e ressurreição de Cristo foram extremamente significativas para nós, pois, há relação entre o batismo em água, que é o sinal e selo da união inicial com Cristo, com a morte e ressurreição de nosso Senhor. Note o que Paulo disse aos crentes romanos:

“Ou, porventura, ignorais que todos nós que fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte? Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida. Porque, se fomos unidos com ele na semelhança da sua morte, certamente, o seremos também na semelhança da sua ressurreição, sabendo isto: que foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos; porquanto quem morreu está justificado do pecado.” (Romanos 6:3-7)

A identificação do crente na morte e ressurreição de Cristo com o batismo deve gerar no crente os sinais de regeneração, o fruto do Espírito. Ele deve andar em novidade de vida, pois “como tal, o batismo proclama que aqueles que estão unidos com Cristo morreram para o pecado” (Bíblia de Genebra – nota). Ou seja, se há união com Cristo deve haver também comunhão. Isso acontece mediante a consideração pela morte e ressurreição de Cristo, que nos vem à memória por meio do batismo.

O estágio ultimo e final, da nossa comunhão com Cristo, se dará quando formos glorificados. A glorificação dos escolhidos do Senhor significa a salvação final e completa na nova ordem de Deus – ou o estado eterno.

“Fiel é esta palavra: Se já morremos com ele, também viveremos com ele; se perseveramos, também com ele reinaremos.” (II Timóteo 2:12).

"Ora, se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo; se com ele sofremos, também com ele seremos glorificados." (Romanos 8:17)

O primeiro e grande mandamento

É maravilhosa a comunhão que podemos ter com o Senhor. Porém, suas implicações possuem simultaneamente um gosto amargo e doce. Mas isso é apenas a primeira parte do mandamento que Cristo mencionou em Mateus 22.37: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento.” Falta a segunda parte, o que pretendo postar assim que der.

Em Cristo,  



Compartilhar:

domingo, 14 de abril de 2013

JOSÉ PRATICAVA ARTES DIVINATÓRIAS NO EGITO?


Por Gilson Barbosa

Não é este o copo em que bebe meu senhor e pelo qual bem adivinha? Procedestes mal no que fizestes. (Gênesis 44:5)

Um dos maiores desejos do ser humano é saber o que acontecerá no futuro. É justamente esse o motivo que tem levado estudiosos e curiosos a se debruçarem sobre todo o tipo de pesquisas que satisfaça o seu ego. E, por conta disso, fazem uso de todas as formas de adivinhações, feitiçarias, encantamentos, etc. É comum a estas utilizarem artifícios como água, cartas, bolas de cristal, moedas, borras de café e até entranhas de animais para conseguir seu intuito.

Alguns dizem que José, no Egito, adivinhava pela água ou objetos líquidos, simplesmente pelo fato de o texto de Gênesis 44:5 dar a entender que ele adivinhava por meio da taça (copo) que fora colocado em um dos sacos de alimentos de seus irmãos.

Se isso ficasse comprovado, poder-se-ia dizer que José não interpretava os sonhos por intermédio de Deus, mas, sim, por meio de práticas ocultistas e espíritas. Mas seria isso possível, visto que José servia a um Deus que condenava as práticas ocultistas? Não seria isso uma contradição? Obviamente que sim. Algumas perguntas iniciais em oposição a esta questão seriam: Todas as práticas divinatórias são 100% corretas? Todas se cumprem? São aprovadas pelo Deus verdadeiro?

Independente de se constatar os acertos ou os enganos nas adivinhações, a Bíblia condena veementemente a prática divinatória: “Quando entrares na terra que o SENHOR teu Deus te der, não aprenderás a fazer conforme as abominações daquelas nações. Entre ti não se achará quem faça passar pelo fogo a seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro; Nem encantador, nem quem consultem a um espírito adivinhador, nem mágico, nem quem consulte os mortos; Pois todo aquele que faz tal coisa é abominação ao SENHOR; e por estas abominações o SENHOR teu Deus os lança fora de diante de ti” (Deuteronômio 18:9-12).

Conforme atesta Bruce K. Waltke a lei proibia tais práticas porque representavam uma visão pagã do mundo (cosmovisão pagã) de que forças espirituais das trevas, não o Deus que guarda a aliança com Israel, governavam o mundo, e o Deus imutável e ético odeia tal visão do mundo e suas práticas. É impossível que José não soubesse desse fato.

            Também fizeram passar pelo fogo a seus filhos e suas filhas, e deram-se a adivinhações, e criam em agouros; e venderam-se para fazer o que era mau aos olhos do SENHOR, para o provocarem à ira. (2 Reis 17:17)

              Não comereis coisa alguma com o sangue; não agourareis nem adivinhareis. (Levítico 19:26)

Os profetas do Antigo Testamento eram considerados capazes e ungidos por Deus para revelarem sua Palavra. No entanto, só prediziam sobre o futuro no sentido de conclamar o povo hebreu ao arrependimento. Pelo contexto da história, o que fica evidente é a intenção de José para com seus irmãos de se fazer conhecido deles, porque, devido à sua separação no passado, não o reconheciam mais, e nem ao menos poderiam descobrir que José estava vivo (Gênesis 37:1-36; 39:1 – 44:5). Sendo assim, José teria de adotar estratégias para que pudessem saber que o novo governador do Egito ele era próprio.

A adivinhação era costume habitual entre os egípcios, o que não implica necessariamente atestar que José fazia uso de tais práticas. A Bíblia nos informa que as revelações de José provinham tão somente de Deus. Note o que José disse aos dois oficiais de Faraó: “E eles lhe disseram: Tivemos um sonho, e ninguém há que o interprete. E José disse-lhes: Não são de Deus as interpretações? Contai-mo, peço-vos” (Gênesis 40:8). Igualmente, quando Faraó indagou a José sobre o sonho que teve, ele não recorreu nem mencionou que faria a interpretação por meios líquidos ou algo semelhante, antes, invocou a Deus: “E respondeu José a Faraó, dizendo: Isso não está em mim; Deus dará resposta de paz a Faraó” (Gênesis 41:16).

Após a descoberta de que o copo estava no saco de mantimento de Benjamim, o irmão mais novo, (Gênesis 44:12) Judá apresentou sua defesa e confessou que o Senhor, por meio da história, não do copo, desvendou a culpa deles: “Então disse Judá: Que diremos a meu senhor? Que falaremos? E como nos justificaremos? Achou Deus a iniquidade de teus servos; eis que somos escravos de meu senhor, tanto nós como aquele em cuja mão foi achado o copo” (Gênesis 44:16). José os colocou em teste novamente. Seriam capazes de abandonar seu irmão mais novo, como fizeram com seu outro irmão, José?

Diante do Senhor a adivinhação por meio de um líquido num copo não tem validade alguma ou algum poder. É contraditório o Senhor legitimar uma prática que ele próprio condenou em sua Palavra. Logo, podemos ser taxativos em afirmar que José não adivinhava nem praticava artes divinatórias. Ao contrário, Deus o premiou com tal capacidade. Na verdade tratava-se de um ardil de José preparando o “terreno” para a reconciliação com seus irmãos.
                                                                                                        
Compartilhar:

quinta-feira, 11 de abril de 2013

FARIAM OS CRENTES HOJE OS MESMOS MILAGRES QUE JESUS FEZ?

Por Gilson Barbosa

Há um grande equívoco no que concerne ao entendimento da natureza dos milagres bíblicos. A grande maioria dos evangélicos pensa que mediante o poder do Espírito Santo são eles próprios os realizadores dos milagres. Em primeiro lugar há algo estranho, pois o Espírito seria apenas o capacitador – cabendo a pessoa fazer uso da “unção” do Espírito. A estranheza está no fato de que o Espírito daria apenas o empurrão, cabendo à pessoa a efetivação plena e cabal do milagre.

Em segundo lugar há incoerência, pois ou é o Espírito que opera de forma exclusiva o milagre ou é o crente. Ou então há uma parceria entre o Deus-Espírito e o ser humano. A pergunta que surge é “sendo assim a glória é de quem quando acontece o milagre?". Deve ser por causa dessa postura que está em “alta” hoje em dia os que “realizam milagres”. Na verdade o Espírito aparece como se fosse apenas uma nota de rodapé num livro, o fato mesmo é que o pastor/pastora ou o irmão/irmã fulano/fulana de tal é “usado por Deus para realizar milagres”. 

Em terceiro lugar há falha na compreensão da fonte do poder, para a realização do milagre. A questão não é se o Senhor manifesta seu poder operando milagres hoje, mas se há homens capazes de operar tais milagres. Os milagres são essencialmente diferentes na sua fonte e em sua realização. Os milagres realizados por Jesus aconteceram porque residia nele próprio o poder de curar e restaurar a saúde. Eles apontavam para a Sua divindade. Não há nada inerente nas pessoas para curar ou realizar milagres. Estes são sazonais, circunstanciais, e sua realização, no âmbito externo, não depende do querer de alguém. A fonte do milagre é sempre o Senhor, e não o homem, nem mesmo este sob o “poder e a unção” do Espírito.

Antes que alguém acuse é necessário dizer que está muito enganado quem pensa que os cristãos tradicionais – adeptos da teologia reformada – negam que Deus não continua realizando hoje manifestações especiais de poder. Como afirmou Walter J. Chantry (Sinais dos Apóstolos – Editora PES): “Em resposta às orações de seu povo, Deus está curando, como expressão soberana de Seu poder, a alguns que a moderna medicina tem desenganado. Alguns teólogos preferem classificar estes eventos como ‘atos de extraordinária providencia’ e não milagres”.

Um dos textos bíblicos mal interpretado, para defender que os crentes hoje realizariam milagres é João 14:23 que diz: “Aquele que crê em mim também fará as obras que eu faço, e as fará maiores do que estas, porque eu vou para o meu Pai”. Na tentativa de justificar que cada crente individualmente pode realizar milagres hoje, alguém citou esse texto como prova. Mas, a dúvida que permanece refere-se a respeito da natureza dos milagres operados por Jesus. Em que sentido os discípulos fariam obras e ainda maiores que as que Jesus fez? Alguns milagres realizados por Jesus comprovam o contrário – que não é possível o crente realizar obras maiores que Cristo realizou. Note só a série de milagres que Jesus efetuou e veja se é possível alguém fazer melhor do que Ele hoje em dia.

  • Milagres na natureza: transformação da água em vinho, a tempestade acalmada, a multiplicação dos pães, a figueira amaldiçoada, o andar sobre as águas, as pescas milagrosas;
  •  Enfermidades graves: cegueira, mudez, gaguez, paralisia, lepra, etc;
  • Ressurreição: dos mortos, a de Cristo mesmo;
  • Expulsão de demônios.
Pergunta: Se estas são algumas das obras que Cristo realizou, como alguém conseguiria fazer obras maiores que estas? Definitivamente não é essa a interpretação da passagem do escritor João. Há mais coisas no texto que precisamos saber.

O evangelista João, no epílogo de seu livro, expressa a extensão dos milagres operados por Jesus. Ele nos esclarece que os milagres relatados não evangelhos não representam todos os milagres realizados por Cristo: “Jesus, pois, operou também em presença de seus discípulos muitos outros sinais, que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo 20.30,31).

Quando João Batista estava encarcerado, ordenou aos seus discípulos que lhe perguntassem se Ele era realmente o Messias: “És tu aquele que havia de vir, ou esperamos outro?” (Mt 11.3); ao que Jesus lhes respondeu: “Ide, e anunciai a João as coisas que ouvis e vedes: Os cegos vêem, e os coxos andam; os leprosos são limpos, e os surdos ouvem; os mortos são ressuscitados, e aos pobres é anunciado o evangelho” (Mt 11.4,5). Será que realmente Jesus queria dizer que os discípulos fariam isto tudo e muito mais? Ou estaria Ele referindo-se a outro tipo de obra?

Os milagres e maravilhas operados por Jesus testemunhavam acerca de sua autêntica messianidade: “Respondeu-lhes Jesus: Já vo-lo tenho dito, e não o credes. As obras que eu faço, em nome de meu Pai, essas testificam de mim” (Jo 10.25). Assim como João Batista, alguns discípulos de Cristo estavam duvidosos e esse sentimento se intensificou em decorrência da morte de Cristo, como podemos verificar na descrença de Tomé (At 20.24-29). Portanto, era mister que Jesus dirimisse tais dúvidas e incredulidades, o que fez após ascender ao céu e cumprir as promessas deixadas: “E eles, tendo partido, pregaram por todas as partes, cooperando com eles o Senhor, e confirmando a palavra com os sinais que se seguiram” (Mc 16.20).

Temos de considerar que não foram somente os milagres realizados pelos apóstolos, após a partida de Jesus, que evidenciaram que Jesus era o Cristo, e tampouco o texto de João 14.12 está-se referindo somente a isso. Percebermos que as “obras maiores” se referem também à coletividade, à geografia e à pregação do evangelho.

Vejamos:
  • O que Cristo realizou (é necessário definir) em seu curto período de ministério poderia, possivelmente, ser realizado após a sua partida, e isso não somente por 12, 70 ou 120 discípulos, mas por toda a igreja que se formaria, ou seja, coletivamente. A realização não é individual, arbitrária, aleatória, nem independente, mas deve estar submetida a providencia de Deus, o que está implícito também a temporalidade.

  • As barreiras geográficas cairiam após a sua ascensão, e o evangelho deveria ser pregado, simultaneamente, em vários lugares: “... e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria, e até os confins da terra” (At 1.8).

  • Não se tem mensura do número das pessoas convertidas durante o período em que Jesus exerceu seu ministério, mas certamente o trabalho evangelístico realizado pelos discípulos alcançou uma projeção muito maior, em relação aos resultados de almas salvas (At 2.41; 4.4; 5.14,16,42; 6.1,7; etc).

Ademais, os próprios estudiosos pentecostais discordam que o versículo de João 14:12 apoie a interpretação de que os crentes fariam milagres maiores que Jesus fez. O pastor Esequias Soares, autoridade brasileira dentro do segmento pentecostal e erudito nos idiomas originais da Bíblia Sagrada, ao interpretar a passagem bíblica afirma corretamente que “as maiores obras diz respeito à quantidade e não à qualidade. A palavra grega aqui é meizon, grau comparativo de megas, ‘grande”’ (Lições Bíblicas, Atos – O padrão para a Igreja da Ultima Hora, página 16, lição do aluno).

Nenhum crente, quem quer que seja, deve se arrogar “realizador de milagres”. Somente Cristo, o Messias, possui inerentemente em si este poder. Os falsos apóstolos estão por aí enganando os incautos com a intenção de mercadejar a fé cristã. Que o povo do Senhor mantenha os olhos bem abertos.

Em Cristo,  
  
Compartilhar:

sábado, 30 de março de 2013

CRISTO DESCEU AO INFERNO PARA PREGAR?

Por Gilson Barbosa

Segundo o apóstolo Pedro, Cristo desceu ao inferno para pregar. Como explicar essa afirmação?

“Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus; mortificado, na verdade, na carne, mas vivificado pelo Espírito; no qual também foi, e pregou aos espíritos em prisão; os quais noutro tempo foram rebeldes, quando a longanimidade de Deus esperava, nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca; na qual poucas (isto é, oito) almas se salvaram pela água” (1Pe 3.18-20).

A questão teológica à qual nos dedicaremos tem seu embrião em uma expressão extraída do Credo dos Apóstolos, onde uma cláusula supostamente afirma que Jesus foi crucifixus, mortuus et sepultus, descendit ad inferna, ou seja, que Ele foi crucificado, morto e sepultado; e que desceu ao inferno. É importante ressaltar que, por volta do século 5º, não havia a idéia de que Cristo desceu ao inferno, mas que simplesmente foi sepultado ou desceu à sepultura. Resumindo, a expressão descendit ad inferna não aparece no credo apostólico. Foi uma inserção feita posteriormente na frase “crucificado, morto e sepultado”.

A expressão “desceu ao inferno” não se encontra nas Escrituras Sagradas, porém, para o desenvolvimento da idéia teológica, vamos nos prender à interpretação do texto bíblico. Os defensores da “descida de Cristo ao inferno” apóiam-se em textos como Atos 2.27, Romanos 10.6,7, Efésios 4.8,9, 1Pedro 3.18,19 e 1Pedro 4.6. Aqui, a nossa atenção será tributada ao texto bíblico de 1Pedro 3.18-20.

Para que a nossa análise seja mais compreensível e didática, apresentaremos as dificuldades apresentadas no contexto que afirma que Jesus realmente desceu ao inferno entre sua morte e ressurreição e que pregou aos espíritos ali. Há, no mínimo, três pontos difíceis de se aceitar, por serem contraditórios com todo o contexto das Escrituras. Vejamos:

Em primeiro lugar, esse posicionamento dá margem para a idéia de que há uma segunda oportunidade de salvação após a morte, o que é antibíblico. Caso Jesus tivesse descido e pregado no Hades, essa pregação, pelo texto de Pedro, teria se destinado apenas àqueles que foram desobedientes nos dias de Noé. Os espíritos que teriam recebido as palavras de Jesus seriam “os quais noutro tempo foram rebeldes, quando a longanimidade de Deus esperava, nos dias de Noé”. Daí surge uma questão difícil: como ficaria a situação dos outros sem salvação que viveram antes e após os dias de Noé? A segunda oportunidade proporcionada pela pregação marginalizou todos os demais espíritos?

Há uma outra interpretação corrente que ensina que essa pregação teria sido uma “proclamação de vitória” e não uma pregação evangelística, mas, mesmo assim, o problema permanece. Por que Cristo teria proclamado a vitória somente aos rebeldes dos dias de Noé? Por que não a todos? Contrastando esse ensino com as Escrituras, temos que “aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso o juízo” (Hb 9.27). A alma do destinado se fixa inamovível no local onde se encontra: “E, além disso, está posto um grande abismo entre nós e vós, de sorte que os que quisessem passar daqui para vós não poderiam, nem tampouco os de lá passar para cá” (Lc 16.26).

Em segundo lugar, há uma linha de pensamento que acredita que os “espíritos em prisão” seriam os anjos decaídos. Nesse raciocínio, Cristo teria proclamado “aos espíritos em prisão” a derrota dos poderes satânicos. Em verdade, o contexto não trata de demônios, mas, sim, de pessoas (v. 14,16). Como transformar tais pessoas em espíritos demoníacos? Qual é a base contextual para isso? O texto diz que os desobedientes estavam nesse estado (desobediência) enquanto Noé construía a arca, o que descarta a idéia das hostes demoníacas.

Em terceiro lugar, alguns estudiosos entendem que como a obra redentora de Cristo não havia se realizado até então, Jesus teria descido ao Hades a fim de proclamar a vitória e a libertação aos santos do período do Antigo Testamento. Mas como já vimos, a pregação não foi dirigida a todos esses santos, mas somente aos contemporâneos de Noé, os quais, aliás, não eram “santos”, não eram pessoas devotadas a Deus. Além disso, temos base para acreditar que o sacrifício de Cristo na cruz do Calvário teve eficácia retroativa e que os santos do Antigo Testamento, quando morriam, iam para a presença de Deus no céu. Assim, essa suposta pregação de Cristo seria desnecessária: “Far-me-ás ver a vereda da vida; na tua presença há fartura de alegria; à tua mão direita há delícias perpetuamente” (Sl 16.11).

Contestamos todas essas interpretações para nos aliarmos àquela que consideramos mais coerente. Estamos nos referindo à interpretação proposta por Agostinho. Primeiramente, o filósofo cristão entendia a passagem no seu âmbito contextual, levando em conta a pregação de Noé aos contemporâneos desobedientes. Esse entendimento e consideração são importantes, pois o esquecimento desse contexto é a “pedra de tropeço” das interpretações desconexas já analisadas. Para Agostinho, Cristo atuou “em espírito” ou “espiritualmente” na e com a pregação de Noé. Assim, Cristo teria pregado aos rebeldes na própria época do patriarca e por intermédio dele. Wayne Grudem declara que “esse entendimento do texto parece, de longe, a solução mais provável para essa passagem intrigante [...] o texto fala, antes, de algo que Cristo fez sobre a terra no tempo de Noé”.[i]

Esse pensamento encontra respaldo e analogia no mesmo livro do apóstolo Pedro, nesta outra declaração: “Da qual salvação inquiriram e trataram diligentemente os profetas que profetizaram da graça que vos foi dada, indagando que tempo ou que ocasião de tempo o Espírito de Cristo, que estava neles, indicava, anteriormente testificando os sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e a glória que se lhes havia de seguir” (1Pe 1.10,11). Nesse texto, observamos como fica clara a ação do Espírito de Cristo por intermédio dos profetas: “o Espírito de Cristo, que estava neles, indicava...”.

Mas fica, ainda, uma última pergunta: “Se Cristo pregou aos contemporâneos de Noé, por meio de Noé, por que Pedro diz que Cristo pregou aos espíritos em prisão?”. Será que tais pessoas estavam presas à época de Noé? Que prisão seria essa? O apóstolo Pedro diz que Cristo pregou aos  “espíritos em prisão, os quais noutro tempo foram rebeldes”. Há, na sentença, dois tempos distintos: o passado, expresso na época de Noé, e o presente, expresso no momento da composição da carta de Pedro. Então, a interpretação seria a seguinte: que Cristo pregou aos que noutro tempo foram rebeldes, mas que estavam, agora, na condição de espíritos em prisão, no inferno.




[i] GRUDEM, Wayne. Teologia sistemática. São Paulo: Vida Nova, p. 494.
Compartilhar:

quarta-feira, 27 de março de 2013

PIERCING E TATUAGENS*

Por Rosivaldo Sales


                                                       

Não existe nenhum texto bíblico que proíba clara ou explicitamente o uso de piercing e de tatuagem. Citar Lv18.29 e I Co 6.19, 20 como textos bíblicos que o condenam ou citar Gl 6.17 e Ap 19.16 como textos que o aprovam é torcer as sagradas Escrituras.


Mas sabemos que a Palavra de Deus nos orienta não apenas por mandamentos ou proibições explícitos. Ela nos orienta também por princípios. Há muitas coisas a respeito das quais não encontramos nas Escrituras orientações específicas, mas é fato que nem por isso devemos nos lançar às especulações ou sugestões humanas, porque certamente seremos instruídos pela Bíblia através de princípios. Portanto, estudemos os princípios pelos quais a Escritura nos orienta a respeito desse assunto tão controverso:

1.      Devemos glorificar a Deus em nossos corpos. Isto significa que nossa aparência exterior deve ser um público testemunho de piedade (Rm 12.1, 2; I Co 6.19,20; II Co 1.12; Fp 1.20; I Tm 2.2, 10; II Tm 3.12; II Pe 3.11).

2.      Devemos fazer somente as coisas que são honoráveis e respeitáveis aos olhos de todos os homens, obedecendo a Deus em tudo o que fazemos (Rm 12.7; Fp 4.8; At 4.19; 5.29).

3.      Não devemos nos engajar em comportamentos de luxúria e licenciosidade impostos pelo mundo (Rm 6.12; II Co 12.21, 22; I Jo 2.15-17; Jd v.4).

4.      Não devemos nos envolver em comportamentos questionáveis (Rm 14.23; I Co10.32; I Ts 5.21-23).

5.      Querer justificar o uso do piercing ou da tatuagem colocando-os em locais que as pessoas que não são do nosso relacionamento mais íntimo não possam ver, só expõe a nossa inclinação à superstição ou à idolatria(At 17.22, 23; I Co10.14;I Jo 5.21).

I. A aplicação dos quatros princípios.

1.      Perfurações do corpo discretas [e de bom gosto]:

A perfuração discreta do corpo, tal como a perfuração de bom gosto que as mulheres fazem em suas orelhas, é considerada por toda a sociedade [brasileira, de hoje] como um adorno perfeitamente tolerável para mulheres crentes piedosas [dedicadas a Deus]. Tal perfuração em si mesma não é associada com nenhum mal. Pelo menos enquanto e onde os brincos de argola nas orelhas não representam nem comunicam algo pecaminoso, as orelhas perfuradas são aceitáveis para a mulher piedosa, e não trazem vergonha nenhuma ao nome de Deus.

2.      Perfurações do corpo que são extravagantes – sensuais - rebeldes:

Por outro lado, uma significativamente grande parcela da sociedade brasileira de hoje acredita que as perfurações do corpo (à exceção das discretas perfurações de bom gosto das orelhas femininas) refletem um estilo de vida licencioso, insubordinado, desordenado, depravado e pervertido. Estas perfurações foram popularizadas na segunda metade do século XX por pessoas dentre a cultura pop conhecidas por seus pecaminosos, depravados, pervertidos estilos de vida. Por causa das conotações pecaminosas associadas com estas perfurações, este comportamento é questionável, na melhor das hipóteses (Rm 14.23; ITs 5.21-23).

3.      As Tatuagens:

As tatuagens eram populares na primeira metade século XX, entre os militares e outros grupos, geralmente refletindo um estilo de vida de farras e orgias e bacanais. Mais tarde, os membros de quadrilhas e gangs, e os rappers, e algumas celebridades começaram a adotar tatuagens como um sinal de um estilo de vida licencioso.

Por causa das conotações pecaminosas associadas com tatuagem, os cristãos devem também se abster deste comportamento, que é questionável na melhor das hipóteses (Rm 14.23; I Ts 5.21-23). Muitas pessoas querem justificar o uso da tatuagem nos casos delas apresentarem símbolos cristãos como a cruz e o peixe ou textos das Escrituras. Ainda outras alegam como justificativa para sua tatuagem o fato delas apresentarem o nome ou imagem de entes queridos. Mas a verdade é que, no primeiro caso prevalece o princípio de que os fins não justificam os meios, e no segundo, tal atitude representa o risco da inclinação para a idolatria.


4. O argumento de que a cultura e a sociedade estão em constantes mudanças.

Alguém pode dizer que a cultura e a sociedade mudaram, e pode argumentar que a perfuração e a tatuagem do corpo não mais têm, hoje, as conotações licenciosas e insubordinadas, desordenadas, depravadas e pervertidas que tinham alguns anos atrás. Pode argumentar que a opinião da sociedade sobre a perfuração e a tatuagem do corpo mudou.

Bem, é verdade que a sociedade muda e que os estilos mudam. Mas, hoje, o estilo de vida que os olhos de pelo menos alguns [bons] homens associam com a perfuração e com a tatuagem do corpo pelos jovens é o estilo de vida rebelde e licencioso. Cem anos no futuro, pode não mais o ser. Mas, por agora, a mensagem que uma pessoa emite a pelo menos algumas pessoas, quando tatua e perfura seu corpo, é uma mensagem de piedade [dedicação ao Senhor] muito questionável. Um corpo perfurado ou tatuado ainda freqüentemente associa a pessoa com a licenciosa cultura pop que continua a impor esses comportamentos em nossa sociedade.

Uma vez que aos verdadeiros crentes não é permitido se engajarem em comportamentos questionáveis, e uma vez que a perfuração (à exceção das discretas perfurações nas orelhas femininas) e a tatuagem do corpo são religiosamente questionadas por muitos em nossa sociedade, devemos concluir que a perfuração e a tatuagem do corpo devem ser evitadas pelos verdadeiros cristãos.

II. Alguns conselhos práticos:

Além dos princípios que nos são apresentados pelas Escrituras, também é importante observar algumas questões práticas da vida que também nos servem como orientação.

1.      Frequentemente surgem doenças resultadas da tatuagem e da perfuração do corpo:

Doenças mortais transmitidas pelo sangue podem resultar de tatuagem e de perfuração do corpo (a AIDS, a hepatite, o tétano, a tuberculose, etc.).

Um estudo feito pelo Dr. Bob Haley e pelo Dr. Paul Fischer descobriu que as tatuagens feitas em ambientes comerciais resultam em mais de duas vezes o número de infecções por hepatite C que decorrem do uso de drogas através de injeções. E as pessoas que foram tatuadas em uma sala comercial de tatuagem são nove vezes mais prováveis de infectar-se com a hepatite C do que alguém que não é tatuado.

2.      A questão de ter que lidar com o arrependimento tardio.

Converse com algumas pessoas idosas que têm estado com tatuagens desde que eram novas. Com muito cuidado para não as ofenderem, olhe bem para a tatuagem e observe que ela está desvanecida e não parece tão bem quanto uma tatuagem nova. Tente imaginar uma tatuagem em você, quando você for velho. Como parecerá quando ela estiver desvanecida e sua pele estiver esticada e desgastada?

Pergunte à pessoa idosa, "Se você fosse novo outra vez, e você estivesse pensando sobre fazer uma tatuagem, você a faria?" Muitos lhe dirão "Não." Algumas mesmo lhe dirão que desejam que suas tatuagens pudessem ser tiradas fora.

A perfuração do corpo é um comportamento muito novo no mundo desenvolvido, assim eu duvido que você pode falar com pessoas idosas que tiveram partes de seus corpos perfuradas por cinqüenta anos. Mas, você pode olhar retratos dos povos nas nações do terceiro mundo [como os índios botocudos do Brasil] que praticaram a perfuração do corpo por gerações e gerações. Nos retratos, olhe para a pele esticada e desgastada das pessoas velhas e observe que as perfurações se desfiguraram, em conseqüência de sua pele que torna-se velha, enrugada e flácida. Imagine como é que seu corpo perfurado parecerá em seus anos idosos, quando sua pele for esticada e estiver enrugada e flácida em resultado dos trabalhos de parto ou da perda do tônus muscular. Pergunte-se, "Como eu parecerei com perfurações do meu corpo frouxas e cedendo e penduradas, quando eu tiver oitenta anos de idade?”. 

3.      Perfurações e tatuagens do corpo são permanentes:

Olhe retratos de seus pais e avós quando eram de sua idade. Seus estilos do cabelo e da roupa eram muito diferentes quando eram jovens. Como seus pais e avós se sentiriam se tivessem que usar hoje, os mesmos estilos que usaram há vinte ou quarenta ou mais anos atrás? Esta é a maneira que você pode sentir quando a perfuração do corpo e tatuagem saírem de moda. Na maioria dos casos, as tatuagens e as perfurações do corpo são permanentes. “Há um número de pessoas que fez isto [tatuagem e/ou piercing] e que disseram: 'Puxa, isto não é o que eu quero. O que realmente parece importante aos 17 ou 20 anos pode não parecer assim tão importante aos 30," disse o Dr. Brian Kinney, um cirurgião plástico de Los Angeles e porta voz da Sociedade Americana De Cirurgia Plástica E Estética.

Profissionais (desde os “artistas” que criam tatuagens até os doutores que as removem) dizem que a melhor estratégia é, em primeiro lugar, não deixar fazer em si tatuagens sem pensar no futuro. O conselho deles: Pense. [Por exemplo:] Daqui a uma década, você tem certeza de que ainda gostará de ter, espalhadas em suas costas, as iniciais da fraternidade de que você faz parte [na universidade]?

As profissões que cuidam da saúde estão tentando desenvolver novos métodos da remoção de tatuagem. Mas, presentemente, não temos um método que remova totalmente uma tatuagem. E os métodos comuns de remoção de tatuagem são frequentemente [falhos], dolorosos e caros.

4.      O que fazer com as tatuagens já existentes?

Existem pessoas que ao descobrir que de acordo com os princípios bíblicos o uso da tatuagem é reprovado por Deus, se desesperam, pois já fizeram uma ou mais tatuagens em seus corpos e passam a questionar até mesmo a legitimidade de sua salvação. Quanto a isso, afirmamos que a salvação não está fundamentada naquilo que uma pessoa fez ou deixou de fazer, mas nos méritos de Cristo (At 4.12; Hb 5.9). Portanto, em relação ao nosso passado, devemos agir do mesmo modo que agia o apóstolo Paulo (Fp 3.12-14) e crer que, em Cristo, tudo se fez novo (II Co 5.17).

Conclusão:

Ao examinar o material providenciado bondosamente pelo amado irmão Marcel para que eu estudasse visando a preparação desta parte da palestra, fiquei surpreendido com o número de pessoas que se dizem cristãs e o número de igrejas que se auto afirmam evangélicas e ao mesmo tempo defendem acaloradamente o uso de piercing e de tatuagens. Estarrecido diante de tal realidade, achei interessante o comentário de um determinado pastor:

 “Ora, que tipo de cristianismo estamos vivendo? Um cristianismo arbitrário que escolhe aquilo que é bom e aquilo que é ruim conforme a moda, que diz não ao incenso, mas diz sim ao mantra “gospelizado”, que diz não a música secular, mas sim aos filmes seculares que usam essas mesmas músicas como tema? Aí quando queremos incorporar uma nova mania espiritualizamos tudo e dizemos: “Vamos resgatar o que o diabo nos tomou, e agora vamos fazer isso ou aquilo”.

“A hipocrisia já atingiu faz muito tempo o ápice dentro da igreja como instituição. Igreja que a cada momento ‘resgata’ alguma coisa das mãos do diabo. “Resgataram” o rock e o tornaram espiritual, “resgataram” a dança e a tornaram profética, “resgataram” a guitarra e a tornaram ungida, “resgataram” as festas à fantasia e a tornaram momento de comunhão... resgataram o piercing e a tatuagem e os transformaram em expressão da liberdade cristã, só esqueceram de resgatar o homem e dar-lhe a chance de ser chamado, Filho de Deus”.

*Estudo proferido numa das reuniões da Igreja Evangélica Congregacional

Compartilhar:
←  Anterior Proxima  → Inicio