terça-feira, 5 de abril de 2011

IGREJAS PARA TODOS OS GOSTOS (Parte I)

Por Luciana Mazzarelli e Carlos Fernandes

Fenômeno do crescimento evangélico no país dissemina a Palavra de Deus

Qualquer pessoa que ande pelas ruas das grandes cidades brasileiras há de ficar impressionado com a quantidade de igrejas evangélicas. São templos, pontos de pregação, salas e até portinhas, onde o nome de Jesus é exaltado e o povo de Deus reúne-se para exercer a sua . Símbolo da expansão do segmento evangélico na sociedade brasileira, a proliferação de igrejas, se por um lado possibilita a disseminação da Palavra de Deus, por outro, gera situações curiosas. Há ruas com vários templos e até mesmo congregações que funcionam coladas parede a parede. Agora, engraçado mesmocom todo respeito, claro! – é conferir o nome de algumas igrejas. Existe, por exemplo, uma certa Assembléia de Deus Com Doutrinas e Sem Costumes, no subúrbio do Rio de Janeiro. No interior de Minas, funciona a Igreja Evangélica A Última Trombeta Soará. Isso sem falar na Igreja Cuspe de Cristo, em São Paulo.

Pode-se discutir o gosto de quem inventa tais nomes, mas o fato é que os aproximadamente 26 milhões de evangélicos brasileiros têm à disposição um variadíssimo cardápio de opções para filiação religiosa. Curiosos, bizarros e imaginativos, os nomes de igrejas, digamos, originais, compõem uma extensa lista: há, por exemplo, a Igreja Pentecostal Alarido de Deus, de Anápolis (GO), cujos cultos não devem ser nada silenciosos; a Igreja Evangélica Deus Pentecostal da Profecia, de São Mateus (ES), que não deixa dúvidas sobre o caráter avivado do povo que se reúne ali; ou ainda a Igreja Evangélica Vida Profunda, da Itaperuna (RJ), onde o crente, na entrada, recebe um estímulo para deixar de lado a superficialidade na sua relação com Deus. a Igreja da Revelação Rápida parece ter sido feita de encomenda para os fiéis mais apressadinhos. Há ainda muitas outras (ver quadro), quase sempre pequenas denominações pentecostais dirigidas por líderes leigos, onde o que vale é a espontaneidade litúrgica e uma boa dose de improvisação.

Mais do que simples tendência, a proliferação das igrejas evangélicas, há alguns anos, já chama a atenção como fenômeno sociológico. Nos anos 90, o Instituto Superior de Estudos da Religião (Iser) debruçou-se sobre os números e chegou a uma conclusão de espantar: só no Grande Rio, cinco novas igrejas surgiam... por semana! E as coisas só aumentaram de lá para cá. Números confiáveis não existem, mas levantamentos realizados por entidades missionárias apontam para a existência de cerca de 150 mil templos e casas de culto evangélicas no país. “Hoje, há uma média de 1,5 mil pessoas por igreja no Brasil”, diz o pesquisador Louranço Kraft, do Serviço para a Evangelização da América Latina (Sepal). Claro, elas concentram-se nos centros urbanos. Em regiões como a Amazônia ou o interior do Nordeste, a presença evangélica permanece extremamente rarefeita. Razões para tanto crescimento não faltam – além do evangelismo ostensivo, responsável por novas conversões, as igrejas evangélicas costumam receber muitos ex-fiéis de outras confissões, como o catolicismo e o espiritismo.

ainda outro aspecto – a ruptura com antigos dogmas, como restrições quanto a usos e costumes e normas rígidas de vestuário. “Os evangélicos aboliram a vida ascética que antes preconizavam”, avalia o doutor em sociologia Ricardo Mariano, autor do livro Neopentecostais – Sociologia do novo pentecostalismo no Brasil (Edições Loyola). Segundo ele, os crentes, cada vez mais adaptados à sociedade, conseguem fazer seu discurso penetrar com mais facilidade, atraindo novos adeptos até mesmo em setores das classes média e alta, tradicionalmente mais avessos à mensagem do Evangelho.

Bem menos acadêmico, mas igualmente sintomático, é o estudo desenvolvido por Orlando Corrêa Neves Castor, 17 anos, estudante de tradições e cultos religiosos. Ele, que mora em Teresópolis (RJ), criou um site sobre igrejas com nomes curiosos (www.igrejologia.hpg.ig.com.br). Evangélico, o rapaz conta que a idéia de elaborar a página virtual veio depois de ver tantos nomes diferentes de igrejas. “Comecei o trabalho procurando em listas telefônicas de vários estados”, conta. “Depois, muitas pessoas se interessaram e começaram a mandar colaborações para a lista. Alguns nomes adotados são bem exóticos.”

Sede mundial”Segundo Orlando, a maioria das igrejas com este perfil tem localização restrita, ao contrário das denominações mais antigas e tradicionais, como Metodista, Quadrangular ou Luterana, cuja abrangência é nacional. “Noventa por cento delas funcionam em pequenos imóveis alugados, em bairros pobres”, comenta o estudante. No meio do bolo, há uma proliferação desenfreada de congregações evangélicas, muitas delas funcionando sem alvará e à margem de outras exigências legais. “Além disso, a falta de cultura e informação de seus criadores é patente”, aponta. Como exemplo, ele cita uma certa Igreja Evangélica Muçulmana Javé É Pai, e outra, tão bizarra quanto: Igreja Cristã Evangélica Espírita Nacional. “Nos dois nomesunião de religiões que não se relacionam entre si. Como um evangélico pode ser muçulmano ou espírita ao mesmo tempo?”, indaga.

Orlando não esconde que o objetivo do bem humorado levantamento que fez é, também, “criticar abusos praticados em nome da das pessoas”. Há pouco tempo, o jornal carioca Balcão, especializado em classificados de todo tipoali vende-se varas de pesca, violoncelos, apartamentos, coleção de gibis do Homem-Aranha e tudo o que se possa imaginar –, publicou um anúncio esquisitíssimo. Anunciava-se a oferta de uma igreja evangélica, equipada com som e móveis e que tinhacerca de 200 membros”, que talvez jamais imaginassem virar objeto de uma transação do gênero. O problema é que fica muito difícil separar o trigo, ou seja, aqueles crentes sérios cujo objetivo ao abrir uma igreja é simplesmente atender um chamado divino e fazer a obra do Senhor, do joio – no caso, os picaretas que vêem a criação de uma congregação apenas como opção de negócio.

A multiplicação de igrejas acontece porque, no Brasil, é muito fácil abri-las. É o que diz Rubens Moraes, 71, pastor da Assembléia de Deus de Madureira, no Rio. Ele também é contador e trabalhaquase 40 anos na área de legalização de entidades evangélicas. “Para se abrir uma igreja, não é necessário muita coisa”, explica. “Junta-se uma diretoria composta por oito pessoas; depois convoca-se uma reunião para emitir a ata de fundação. A partir daí, basta elaborar o estatuto e registrá-lo no cartório”, ensina. Com este registro, é possível solicitar o cartão do Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas, o CNPJ, o que pode ser feito até pela internet.

Segundo Rubens, todo o processo é baratíssimo. “Se o próprio interessado quiser fazer tudo, vai desembolsar cerca de R$ 250. Caso prefira contratar um contador, o gasto fica entre 600 e mil reais.” Isso, claro, se o empreendedor não preferir fazer tudo clandestinamente e atuar ao arrepio da lei. Especialista no assunto – ele é autor do livro Legislação para igrejas e entidades sem fins lucrativos, editado pela CPAD –, Rubens Moraes admite que não há como exercer controle sobre quem resolve criar uma igreja. “A lei permite a abertura por qualquer pessoa, mas não pode avaliar os interesses e a seriedade de cada um. Isso abre oportunidades para os aventureiros.” Ele conta que foi procurado recentemente por uma empresária que decidiu colocar uma igreja em seu nome. “Ela construiu, com o seu dinheiro, a comunidade. Apesar de não ser pastora nem nada, ela tem direito de tornar-se presidente da obra.”

Outra estratégia muito utilizada, até mesmo em busca de legitimidade, é a inclusão do nome de uma denominação já conhecida. É grande a quantidade de comunidades independentes que adotam, por exemplo, nomes como “Assembléia de Deus de tal-tal-tal, ou “Igreja Batista disso-ou-daquilo”, mesmo sem ter quaisquer vínculos com as convenções batistas ou assembleianas estabelecidas. “Este tipo de procedimento nos incomoda bastante, inclusive porque não temos qualquer controle sobre a doutrina ou liturgia praticada nestas igrejas”, comenta um pastor ligado à Convenção Batista Fluminense que, para evitar constrangimentos de parte a parte, pediu para não ser identificado.

Ele diz que a entidade teve problemas com issosegundo o pastor, houve casos, por exemplo, de fiéis dessas igrejas de linha independente buscarem algum tipo de satisfação por desvios de conduta de seus líderes. “A marcaIgreja Batista’ é respeitada até mesmo fora dos meios evangélicos. Então, há pessoas que se aproveitam disso e usam o nome de nossa denominação para passar credibilidade.” Interessante, também, é a megalomania encerrada em nomes grandiloqüentes, tais comosede mundial” ouministério internacional”. Às vezes, igrejinhas que possuem um único templo ostentam, orgulhosas, placas com tais dizeres. Isso quando o nome do mandachuva não aparece em letras garrafais, às vezes, maiores até do que os nomesDeusou “Jesus”.

Continua...

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