terça-feira, 26 de abril de 2011

OS DONS DO ESPÍRITO SANTO

Por Gilson Barbosa

Antes de qualquer coisa, é importante enfatizar que esta abordagem expressará, de maneira simples, os pontos de vista pentecostal e tradicional acerca dos dons do Espírito Santo. Excepcionalmente nesta postagem não tenho a intenção de ser tendencioso com nenhuma das duas posições. Neste post, meu comentário é apenas expositivo.

Definição

Podemos dizer que os dons do Espírito Santo, manifestados especificamente entre os crentes da igreja primitiva (conforme a posição tradicional) ou  manifestados nos dias atuais (conforme a posição pentecostal), são habilidades e talentos dados a alguém pela influência interna do próprio Espírito Santo (1Co 12.4-11).

Os dons espirituais não devem ser confundidos com habilidades ou talentos naturais. A pessoa nasce com certas disposições que podem ser ampliadas. Dons espirituais não são, desta forma, um produto de nascença, inata ao cristão, mas do poder do Espírito Santo.

Regulamento dos Dons

Observamos que os dons espirituais foram dados para o benefício do corpo de Cristo (a Igreja), e necessitaram ser regulados, para que o seu objetivo fosse alcançado.Esta regularização era para que não houvesse confusão, orgulho e arrogância espiritual (V. 1Co 14).

Os estudiosos pentecostais classificam os dons descritos em 1Coríntios 12.1-11 em três grupos: os dons de revelação, os dons de poder e os dons de elocução. Vejamos:         

Ponto de vista pentecostal

Os dons de revelação

Segundo este ponto de vista, os dons de revelação são: palavra de sabedoria, palavra do conhecimento e discernimento de espíritos. Vejamos:

O dom da palavra de sabedoria

Este dom não é produto do esforço da sabedoria humana em conhecer a sabedoria divina, mas é um dom vindo diretamente de Deus. Segundo os estudiosos pentecostais, este dom é de extrema importância para os obreiros (não que não esteja à disposição de todos, indistintamente) ou àqueles que tenham responsabilidades na obra do Senhor. Por meio deste dom é revelada a solução para uma situação ou um problema insolúvel de extrema importância, capacitando, assim, a pessoa agir de maneira adequada, não desconsiderando, é claro, toda a orientação já existente na Bíblia Sagrada (At 6.3,10).

O dom da palavra do conhecimento

Também é conhecida como palavra da ciência. Por meio deste dom, a pessoa consegue enxergar além da esfera material e física. Passa a tomar conhecimentos de fatos que jamais saberia por meios naturais. Este dom dá condições à pessoa de não cair em situações difíceis e se origina na onisciência de Deus. Este fato se deu no Antigo Testamento, com o profeta Eliseu: “E disse um dos servos: Não, ó rei meu senhor; mas o profeta Eliseu, que está em Israel, faz saber ao rei de Israel as palavras que tu falas no teu quarto de dormir” (2Rs 6.12).

O dom de discernir espíritos

Por meio deste dom, a pessoa tem condições de fazer distinções das várias fontes de manifestações espirituais, identificando a natureza e o caráter dos espíritos. Num mundo cheio de imitações e falsidades (falsos profetas) doutrinárias, este dom visa discernir se tais procedimentos se originam realmente em Deus, beneficiando, assim, a Igreja grandemente. Este fato ocorreu com Paulo: “E isto fez ela por muitos dias. Mas Paulo, perturbado, voltou-se e disse ao espírito: Em nome de Jesus Cristo, te mando que saias dela. E na mesma hora saiu” (At 16.18).

Os dons de poder

Os dons de poder são: dom da fé, dom de curar e o dom de operação de maravilha. Vejamos:

O dom da fé

Em algum aspecto, toda a fé é dom de Deus, mas há também a fé como dom do Espírito. Não é a fé intelectual nem a fé salvadora, mas a fé de se confiar em Deus de forma sobrenatural. Este tipo de fé é um recurso que Deus, pelo seu próprio poder, proporciona ao crente. Nem todos possuem este tipo de dom. É a capacidade sobrenatural de crer no impossível. Vemos esta fé no episódio de Mateus 17.20: “E Jesus lhes disse [...] em verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para acolá, e há de passar; e nada vos será impossível”.

O dom de curar

Não obstante o esforço médico ser reconhecido pela Bíblia, este tipo de dom nada tem a ver com este fato. Neste dom, qualquer pessoa pode ser usada para tal tarefa. Este dom visa atuar sobrenaturalmente sobre o corpo humano, livrando-o de todo e qualquer tipo de enfermidade. Ela (a cura divina) faz parte da obra redentora, levada a efeito por Cristo na cruz do Calvário.

O dom de operação de maravilhas

Este dom proporciona à igreja a oportunidade de realizar sinais, milagres e obras portentosas, pela capacitação sobrenatural. Podemos ver a manifestação deste dom na ressurreição de mortos, nos castigos – como, por exemplo, no caso de Ananias e Safira – e na intervenção das forças da natureza – como, por exemplo, se deu com Pedro, quando ele sobre as águas: “E ele disse: Vem. E Pedro, descendo do barco, andou sobre as águas para ir ter com Jesus” (Mt 14.29).

Considere, também, o que Lucas relata acerca de Paulo: “E Deus pelas mãos de Paulo fazia maravilhas extraordinárias. De sorte que até os lenços e aventais se levavam do seu corpo aos enfermos, e as enfermidades fugiam deles, e os espíritos malignos saíam.” (At 19.11,12; grifo do autor).

Os dons de elocução

Os dons de elocução são: dom da profecia, dom de variedades de línguas e dom de interpretar as línguas. Vejamos:

O dom de profecia

Em certo sentido, a pregação é também uma mensagem profética, porém, da forma como este dom sinaliza, seria a habilidade de transmitir a mensagem de Deus diretamente pela inspiração do Espírito Santo. Neste caso, segundo o apóstolo Paulo, a profecia tem três finalidades: “Mas o que profetiza fala aos homens, para edificação, exortação e consolação” (1Co 14.3). O dom de profecia não tem autoridade canônica, não serve para governar ou administrar a igreja. Também não é o mesmo ministério nos moldes do Antigo Testamento.

O dom de variedades de línguas

É o falar em idiomas jamais conhecidos ou estudados pela pessoa. É salutar entender, segundo o ponto de vista pentecostal, que estas línguas podem ser humanas ou desconhecidas. Quem ouve este tipo de manifestação pode não entender o que está sendo dito, pois é uma palavra proferida pelo Espírito Santo. Não quer dizer que se uma pessoa tem facilidade de aprender uma língua ela exerce este dom, pois o mesmo é uma manifestação do Espírito Santo.

O dom de interpretação das línguas

Este dom é necessário para interpretar as várias línguas estranhas, quer seja humana (em outro idioma) quer seja desconhecida. Neste sentido, as línguas têm a função de mensagem profética para a Igreja: “E eu quero que todos vós faleis em línguas, mas muito mais que profetizeis; porque o que profetiza é maior do que o que fala em línguas, a não ser que também interprete, para que a igreja receba edificação” (1Co 14.5).

“E, se alguém falar em língua desconhecida, faça-se isso por dois, ou quando muito três, e por sua vez, e haja intérprete” (1Co 14.27).

Ponto de vista tradicional


Segundo este ponto de vista, os dons do Espírito, relatados em 1Coríntios 12, foram temporários, e não permanentes. O que aconteceu no dia de Pentecostes foi um evento singular, quando os dons não eram das pessoas, mas, sim, do Espírito, para o benefício da Igreja de Cristo e para a glória de Deus. 

Um dos motivos que levou a cessação dos dons, segundo esta ótica,  foram os inúmeros empregos distorcidos dos mesmos, no início da igreja primitiva. O mesmo não ocorre com o fruto do Espírito, que é permanente e, por isso, deve ter a primazia em relação aos dons.

Esta ênfase interpretativa deve-se ao fato de que algumas pessoas testemunham ter sido batizadas com o Espírito Santo, mas, infelizmente, não apresentam o fruto do Espírito, gerando um contra-senso insustentável à luz das Escrituras.

As profecias do Antigo Testamento, sobre o derramamento do Espírito Santo, se cumpriram somente no dia de Pentecostes e no início da Igreja Primitiva, quando Pedro identificou a experiência do Pentecostes com Joel 2.28, que registra: “E há de ser que, depois derramarei o meu Espírito sobre toda a carne, e vossos filhos e vossas filhas profetizarão, os vossos velhos terão sonhos, os vossos jovens terão visões”.

No Novo Testamento, os dons espirituais foram dados a todos os que cressem, sendo estes dons empregados na igreja: “Estavam todos reunidos no mesmo lugar [...] E todos ficaram cheios do Espírito Santo”. O Espírito Santo é dado para sempre a todos os que crêem, como bem afirmou Calvino: “uma vez selado com o Espírito Santo, para sempre selado”. 

Analisemos a interpretação do que ocorreu no dia de Pentecostes segundo esta linha de interpretação.
Dia de Pentecostes

“E, cumprindo-se o dia de Pentecostes, estavam todos concordemente no mesmo lugar; e de repente veio do céu um som, como de um vento veemente e impetuoso, e encheu toda a casa em que estavam assentados. E foram vistas por eles línguas repartidas, como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles”      (At 2.2,3).

O importante neste episódio não seria as línguas em si, mas o revestimento com o Espírito Santo. O fervor não foi produzido por aquelas pessoas que estavam ali, como ocorre em alguns meios carismáticos, mas veio diretamente do céu. Este episódio da descida do Espírito é entendido como o nascimento da Igreja primitiva.
As línguas

Não foram línguas “estranhas”, mas inteligíveis, visto que a Bíblia relata que no meio da multidão que visitavam Jerusalém “cada um os ouvia falar na sua própria língua” (At 2.6b). O propósito destas línguas era anunciar a todas as raças e nações presentes a grandeza do evangelho de Deus. Havia ali pessoas de várias localidades: “Como, pois, os ouvimos, cada um, na nossa própria língua em que somos nascidos? Partos e medos, elamitas e os que habitam na Mesopotâmia, Judéia, Capadócia, Ponto e Ásia, e Frígia e Panfília, Egito e partes da Líbia, junto a Cirene, e forasteiros romanos, tanto judeus como prosélitos, Cretenses e árabes, todos nós temos ouvido em nossas próprias línguas falar das grandezas de Deus” (At 2.8-11).

É significativo dizer que os que falaram em línguas eram todos galileus, porém, suas línguas eram entendidas por pessoas de outras localidades.
Os dons

Havia em Corinto muitos deuses e religiões misteriosas que também testemunhavam manifestações espirituais muito estranhas. Pessoas eram possuídas por entidades, as artes adivinhatórias eram constantes, rituais extravagantes e havia um clima de profunda emoção nas pessoas. É neste contexto da cidade de Corinto que Paulo pregou à igreja, conduzindo-a quanto ao procedimento com relação aos dons: “Acerca dos dons espirituais, não quero, irmãos, que sejais ignorantes” (1Co 12.1).

Emprestando algumas considerações do comentário bíblico da Bíblia de Estudo de Genebra, podemos inferir os seguintes ensinos, implicando em dizer que:

a.)  O dom espiritual é uma habilidade para expressar, celebrar, demonstrar e,  portanto, comunicar Cristo de um modo que edifique e fortaleça a fé em outros cristãos e faça a igreja crescer.

b.)  Os dons espirituais podem de modo geral ser classificados em dois grupos: habilidades para falar e habilidades para prestar ajuda prática com amor.

Em Romanos 12.6-8, a lista de dons, elaborada pelo apóstolo Paulo, alterna-se entre estas categorias:
Dons de fala: profecia, ensino e exortação.
Dons de auxílio: serviço, doação, direção e demonstração de misericórdia.

c.)  Não há cristão que não tenha algum dom de ministério: “Mas a manifestação do Espírito é dada a cada um, para o que for útil”. É de responsabilidade de cada crente a responsabilidade de descobrir, desenvolver e usar plenamente quaisquer que sejam as capacidades para o serviço que Deus lhe deu.

d.)  A manifestação dos dons tal qual é narrada em 1Coríntios 12 cessou (data aproximada – 70 d.c). Não há mais a necessidade destas manifestações: “O amor nunca falha; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá” (1Co 13.8).

Sobre este texto, alguns comentaristas tradicionais entendem que Paulo provavelmente mencionou estes três dons (profecia,  línguas e ciência) como representantes de todos os dons espirituais, apontando para sua função temporária. Ainda outros estudiosos tradicionais interpretam que estes três dons específicos foram mencionados por Paulo por terem uma função reveladora que chegou ao fim ao se completar o cânon do Novo Testamento.

e.)  As manifestações dos dons foram necessárias na época apostólica para que o povo pudesse crer e a igreja se expandisse.

f.)   Dos dons espirituais considerados importantes, o evidente e supremo é o dom de profecia, sendo que o mesmo não é derivado do poder sobrenatural do Espírito (como os pentecostais e carismáticos entendem), mas é a Palavra de Deus pregada fielmente: “porque o que profetiza é maior do que o que fala em línguas, a não ser que também interprete para que a igreja receba edificação” (1Co 14.5).

Respeito ambas as posições e entendo que o fruto do Espírito deve ser objeto de estudo interpretado em harmonia pelas duas correntes teológicas e de extrema importância para a vida cristã.

No amor de Cristo,


2 comentários:

  1. QUERO SABER ONDE ESTÁ ESCRITO QUE OS DONS SEÇARAM

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  2. Olá amado irmão Natan,
    Obrigado por acessar meu blog. Não há texto bíblico afirmando que os dons cessaram.
    Em Cristo,

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