quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O QUE É RELIGIÃO?

Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus (Mt 4.4)

Nesta declaração Jesus nos remete a consideração de que os homens têm algo mais que alimentar além do corpo físico. Há o clamor da alma que não pode se contentar somente com o trigo. Há perguntas que insistem em atravessar os séculos e reclamar respostas. É o espiritual que reivindica o seu espaço no tempo, em meio às diversas culturas e sociedades. A história da religião acompanha a história da sociedade. Onde estiver o ser humano, aí estará, igualmente, a religião.

O sentido da vida e da morte são indagações religiosas antigas, mas que mesmo hoje se mostram influentes e vigorosas, ainda que se apresentem por meio de símbolos secularizados. E a religião é constituída pelos símbolos que os homens utilizam, porém os homens são diferentes e conseqüentemente seus mundos sagrados também, suas religiões são distintas. Os símbolos são variados; altares, santuários, comidas, perfumes, amuletos, colares, livros, todos eles inspiram alguma forma de sagrado. Um sagrado que não se reflete apenas nas coisas, mas também em gestos, em expressões e ações, como o silêncio, os olhares, as renúncias, as canções, as romarias, as procissões, as peregrinações, os milagres, as celebrações, as adorações e até mesmo o suicídio. Edmund Burke chegou a dizer que o homem, em sua constituição, é “um animal essencialmente religioso”.

Apesar disso, como sabemos, não foram poucos os que profetizaram a decadência e extinção do sagrado entre os homens. Que crente jamais se indignou com a famosa declaração de Karl Marx: “O sofrimento religioso é, ao mesmo tempo, expressão de um sofrimento real e protesto contra um sofrimento real. Suspiro da criatura oprimida, coração de um mundo sem coração, espírito de uma situação sem espírito: a religião é o ópio do povo”. Esta é uma das definições de religião, mas foi assiduamente combatida e não é a única. Vejamos outras.  

Definições e classificações da religião

         O vocábulo português “religião” é oriundo do latim religare, que significa “religar”, “atar”. Alguns cristãos se opõem frontalmente à classificação do cristianismo como religião, baseando-se em sua supremacia e distinção em relação às demais crenças. Porém, ao agirmos desta forma, estamos, na verdade, criando a nossa própria definição do termo, cujo significado é inaceitável para os dicionaristas e enciclopedistas, pois acabamos apresentando definições incompletas em si mesmas. Assim sendo, independente desta discussão filosófica e do posicionamento que o leitor defende, é válido considerarmos alguns conceitos do que seria uma religião. Vejamos:

  • Religião é um sistema qualquer de idéias, de fé e de culto, como é o caso da fé cristã.
  • Religião é um conjunto de crenças e práticas organizadas, formando algum sistema privado ou coletivo, mediante o qual uma pessoa ou um grupo de pessoas são influenciados.
  • Religião é um corpo autorizado de comungantes, que se reúnem periodicamente para prestar culto a um deus, aceitando um conjunto de doutrinas que oferece algum meio de relacionar o indivíduo àquilo que é considerado ser a natureza última da realidade.
  • Religião é qualquer coisa que ocupa o tempo e as devoções de alguém. Há nessa definição um quê de verdade já que aquilo que ocupa o tempo de uma pessoa é geralmente algo a que ela se devota, mesmo que não envolva diretamente a afirmação da existência de algum ser supremo ou seres superiores. E a devoção encontra-se na raiz de toda religião.
  • Religião é o reconhecimento da existência de algum poder superior, invisível; é uma atitude de reverente dependência a esse poder, na conduta da vida; e manifesta-se por meio de atos especiais, como ritos, orações, atos de misericórdia, etc.

A partir destas tentativas de definição podemos nos atrever a classificar as religiões em tipos de acordo com a similaridade de suas crenças. Especialistas no assunto destacam pelo menos dez classes de religiões, todavia, como o leitor perceberá, há casos em que a distinção é mantida por uma linha muito tênue, o que sugerirá uma certa mistura de conceitos (tipos) em uma única religião. De fato, os tipos de religiões mesclam-se em qualquer fé que queiramos considerar, e geralmente as religiões progridem de um tipo para o outro, ao longo de sua trajetória. Assim, os vários tipos de religiões alistados a seguir não são necessariamente contraditórios ou excludentes entre si. Acompanhe:

Religiões animistas: Sistemas de crenças em que entidades naturais e objetos inanimados são tidos como dotados de um princípio vital impessoal ou uma força sobrenatural que lhes confere vida e atividade.

Religiões naturais: Este grupo de religiões prega a manifestação de Deus na natureza e, geralmente, dispensa rejeita a revelação divina e os livros sagrados. Segundo esta vertente, toda revelação à parte da natureza não é digna de confiança.

Religiões ritualistas: Estas religiões enfatizam as cerimônias e rituais por acreditar que estes agradariam as divindades. Tais ritos e encantamentos teriam o poder de controlar os espíritos, fazendo-os atuar para o bem das pessoas, e para malefício dos inimigos adoradores.

Religiões místicas: As religiões místicas são também revelatórias, porém seus adeptos acreditam na necessidade de contínuas experiências místicas como meio de informação e de crescimento espiritual. Os místicos regem sua fé pela constante e diligente busca da iluminação.

Religiões revelatórias: Na verdade, as religiões revelatórias seriam uma espécie de subcategoria das religiões místicas. Este grupo de religiões fundamenta-se nas supostas revelações da parte de deuses, de Deus, do Espírito ou de espíritos desencarnados que compartilham mistérios que acabam cristalizados em livros sagrados.

Religiões sacramentalistas: São grupos que têm nos sacramentos meios de transmissão da garça divina e da atuação do Espírito de Deus. Este grupo, geralmente, acredita que o uso dos sacramentos por meio de pessoas “desqualificadas” impede o Espírito de Deus de atuar. Os sacramentos constituem-se como veículo para promoção do exclusivismo.

Religiões legalistas: São religiões construídas sob preceitos normativos, algum código legal que deve governar todos os aspectos da vida de um indivíduo. Este código é usualmente concebido como divinamente inspirado. O bem é prometido àqueles que o obedecem e a punição aos desobedientes.

Religiões racionais: São religiões em que a razão recebe ênfase proeminente e a filosofia é supervalorizada. Nestas religiões, a razão seria algo tão poderoso que nada mais se faria necessário além de seu cultivo bem treinado e disciplinado.

Religiões sacrificiais: São religiões que pregam a salvação por meio de sacrifícios apropriados. O cristianismo é uma religião sacrificial, no sentido de que Jesus Cristo é reputado como o autor do sacrifício supremo necessário à salvação. A suprema palavra do Senhor declara: “E quase todas as coisas, segundo a lei, se purificam com sangue; e sem derramamento de sangue não há remissão” (Hb 9.22).

Nem só de pão viverá o homem...

Todos estes princípios de crenças sustentam, cada qual à sua maneira, a religiosidade do mundo em que vivemos. Muitas foram as declarações de filósofos e intelectuais que vislumbraram o desaparecimento destes sistemas, porém a religião esta aqui, ao nosso redor, manifestando-se de diversas formas, em todos os lugares e coisas, em pleno século XXI, tão forte e influente quanto a mais recente descoberta científica. Por quê? Porque o homem não vive só de pão, mas vive também de religião. É ela quem se candidata a responder o “drama da alma humana”, o traço magno de todas as religiões. Um mundo caído sem religião não é concebível. Em sua famosa canção, Imagine, o célebre cantor e compositor John Lennon nos convida a imaginar um mundo ideal, sem coisas ruins, entre as quais ele destaca as religiões, propõe um mundo em que as pessoas pudessem viver em paz e sugere a religião como fonte incentivadora das guerras. Em verdade, não há como negar que o abuso das atitudes religiosas produziram sangrentas guerras entre nós. Entretanto, temos de ponderar que as guerras não nasceram das convicções religiosas, mas, sim, do comportamento errado diante delas, o que é diferente. Se os homens são tão ímpios com religião, o que seriam sem ela? Não é possível desfazer-se das religiões simplesmente tentando ignorá-las.

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