sábado, 27 de agosto de 2011

PRESERVANDO A IDENTIDADE DA IGREJA

Por Gilson Barbosa

Esta postagem examina a identidade da Igreja de Cristo e pondera sobre a necessidade de preservá-la. “Identidade” significa simplesmente “o aspecto coletivo do conjunto de características pelas quais uma coisa é definitivamente reconhecível ou conhecido”.  O dicionário Michaelis informa que identidade significa “Conjunto dos caracteres próprios de uma pessoa, tais como nome, profissão, sexo, impressões digitais, defeitos físicos etc., o qual é considerado exclusivo dela e, conseqüentemente, considerado, quando ela precisa ser reconhecida”. A verdadeira igreja de Cristo obrigatoriamente deve possuir características que a identificará como única e exclusiva Igreja do Senhor Jesus.
No sentido que abordamos neste post, a identidade da “igreja” não está nos bancos, nem nos músicos, nem nos pregadores, nem no púlpito, nem no prédio, nem no sistema de som ou de tecnologia que determinada comunidade local possui. A igreja, no sentido local, com suas estruturas não é essencialmente igreja. Todo o lugar onde nos reunimos para prestar culto a Deus tornar-se sagrado e Ele recebe nossa adoração.  Lembra-se do que aconteceu quando Moisés estava no deserto, próximo ao Monte Sinai? O anjo do Senhor apareceu a ele e lhe disse que tirasse os sapatos dos seus pés, pois aquele lugar era, naquele momento, terra santa. Ali Deus falou com ele e lhe instruiu.  
I – Marcas de Identificação
Darei um exemplo de como entender a identidade de algo. Como você poderia encontrar um amigo perdido ou que há muito tempo não o vê? Primeiro, você reuniria todas as marcas de identificação dele e, em seguida, iniciaria a pesquisa. Só depois de encontrar a pessoa que combinasse com cada marca de identificação você comprovaria e admitiria como sendo o estava procurando. Por exemplo, se o seu amigo fosse um músico, ou tivesse determinada profissão, ou uma cicatriz no braço, estas marcas o identificam e certamente por elas você teria plena certeza de que a pessoa encontrada era quem você estava procurando.
Da mesma forma, existem muitas igrejas no mundo. Como alguém pode saber qual é a certa? A genuína? Como alguém pode saber qual é a igreja de Cristo? Você deve analisar todas as marcas de identificação. Em seguida, compare as várias igrejas com essas marcas de identificação. Somente depois de encontrar a igreja que corresponde a cada marca de identificação pode ter a certeza de ter encontrado a igreja certa. Mas quais são as marcas de identificação? Onde elas são encontradas? Elas pertencem a uma única denominação? Os detentores delas são as igrejas históricas, os pentecostais? Aquela igreja que recentemente foi fundada no seu bairro, e que você desconhece seus ensinamentos, não pode ser uma igreja verdadeira? A Bíblia é a resposta. Ela nos fornece todas as marcas verdadeiras de como identificar a igreja. Portanto, voltemos a ela para ver o que eles são.
A primeira marca que identifica uma igreja verdadeira é se Cristo, verdadeiramente, é o dono dela. Não basta ter o nome “Jesus” na placa de identificação da igreja ou registrado em cartório. O nome da igreja dos mórmons é Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Porém, o Jesus dos mórmons não pode ser o mesmo Jesus dos cristãos primitivos, e dos genuínos cristãos do século 21. Os mórmons, assim como muitos outros grupos sectários, dizem que a igreja primitiva fracassou, apostatou-se e que, portanto, houve a necessidade de levantar outro grupo (no caso, os mórmons) para reviver e ressuscitar o evangelho verdadeiro. No entanto não acredito em hipótese alguma que Cristo, sendo verdadeiro Deus, não tivesse poder eficaz e suficiente para guardar sua igreja da corrupção mundana. Foi Ele quem estabeleceu a igreja. “E eu também digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (M 16.18). Alguns expositores não aceitam a interpretação corrente e dizem que “as portas do inferno” nesse texto trata-se da sepultura comum e que “minha igreja” refere-se aos justos mortos que se encontravam no Hades, antes da morte e ressurreição de Jesus. Porém, há outros que  interpretam e aplicam esta passagem no sentido de que os poderes do mundo inferior, das trevas, os demônios não detêm nenhum tipo de poder que possa impedir o avanço da igreja.
Paulo diz em Colossenses 1.18 que Jesus é a cabeça do corpo da igreja. Ou seja, Jesus é o líder, o dono da Igreja. É o que comanda o que dirige. As direções e decisões emanam Dele. Uma Igreja verdadeira tem Cristo como o centro das atenções e não o ser humano. Chega a ser constrangedor alguns “hinos” que colocam o ser humano num lugar onde ele jamais deveria estar. Outros, lisonjeiam tanto o seu líder que num culto o nome deste é mais mencionado do que o nome de Jesus. Não é demais lembrar: Jesus é o Dono da Igreja. 
A segunda marca que identifica uma igreja verdadeira é se ela tem a Bíblia Sagrada como único manual de regra de fé e conduta. Fico espantado quando vejo o tipo de tratamento que muitos crentes, líderes, igrejas tem dado a Bíblia Sagrada nos últimos dias. Dizem que ela é tudo para eles, mas, não a leem, não a estudam, não a examinam, não a consideram, não a respeitam, não a seguem fielmente. Então como a Bíblia pode, para estes, ser um manual de regra de fé e conduta?
Há crentes modernos, em nossos dias, que cometem “pequenos pecados” sob uma justificativa pragmática e subjetiva e não consideram que a Bíblia condena até mesmo os “pequenos” pecados. Olham sites pornográficos, assistem programações televisivas perniciosas, fazem sexo antes do casamento, mentem, falam palavrões, xingam, e depois na maior “cara de pau” dizem que Deus é tão grande e imenso que não se preocupa com essas coisas. Aceitar as Escrituras como única regra de fé e conduta é uma das marcas que identificam tanto uma igreja verdadeira quanto um cristão verdadeiro. A Bíblia Viva traz assim o texto de II Timóteo 3.16: “A Bíblia inteira nos foi dada por inspiração de Deus e é útil para nos ensinar o que é verdadeiro e para nos fazer compreender o que está errado em nossas vidas; ela nos endireita e nos ajuda a fazer o que é correto”.
Não basta aceitar que a Bíblia é inerrante e infalível Palavra de Deus, pois isso é até possível, sem, contudo viver em conformidade com os ensinamentos dela. Jesus disse aos líderes religiosos, em João 5.39, que eles examinavam as Escrituras porque criam que elas proporcionavam a vida eterna, mas não admitiam que esta vida eterna era dada por Jesus, que falava com eles: “Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam; E não quereis vir a mim para terdes vida”.   Alguém disse que a Bíblia não é apenas um livro de sermões, mas a Santa Palavra de Deus. Quantos pregadores tem a Bíblia apenas como um livro para exortar as pessoas, ou para impactar as pessoas com sua sabedoria aplicativa dela, mas há muito tempo não vive em conformidade com os seus ensinamentos. Outros há que passam por cima e atropelam seus ensinos ido além do que ela prescreve: “E eu, irmãos, apliquei estas coisas, por semelhança, a mim e a Apolo, por amor de vós; para que em nós aprendais a não ir além do que está escrito, não vos ensoberbecendo a favor de um contra outro” (I Co 4.6).
A terceira marca que identifica uma igreja verdadeira é se ela adora genuinamente a Deus. O Dicionário Michaelis explica que genuíno significa: adj (lat genuinu) 1 Puro, sem mistura nem alteração. 2 Natural. 3 Próprio, verdadeiro. 4 Sincero. Antôn (acepção 1): impuro, adulterado. Adorar a Deus é prestar culto a Ele. Na tradução da Bíblia Almeida Atualizada em Mateus 4.10 quando Jesus responde ao Diabo: “Então, Jesus lhe ordenou: Retira-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás, e só a ele darás culto”. Muitas pessoas tem confundido adoração com gritaria, barulho, línguas estranhas, louvorzão, palmas, gestos, cantarolas entre outras coisas do gênero. Jesus, no entanto, disse a mulher samaritana que a adoração não tem nada a ver com um local ou com algo exterior, mas ela é espiritual e verdadeira: “Mas vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores. Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade”  (Jo 4.23, 24).
Em certos lugares o entendimento de adoração é tão superficial e raso, pois entendem que só passaremos a adorar de verdade quando o grupo de louvor pede para a igreja: “Irmãos, chegou a hora de adorar a Deus, levantemos e cantemos”. Adorar a Deus é um estilo de vida e não um momento do culto. Essa marca de identificação tem sido falsificada por alguns.
Segundo o pastor Esequias Soares da Silva “os dois principais verbos gregos para “adorar”, para o Novo Testamento, são proskneo que significa “adorar, render homenagem” no sentido de prostrar-se e latreuo que significa “servir” a Deus. A luz da Bíblia, podemos definir adoração como serviço sagrado, culto ou reverência a Deus por suas obras. Os principais elementos de um culto são: oração, louvor, leitura bíblica, pregação ou testemunho, oferta e a manifestação dos dons do Espírito Santo”.[1] A adoração tem a ver com um coração reverente e humilde diante de Deus em reconhecimento aos seus atributos e não se traduz simplesmente pela pregação ou pregador, cânticos ou cantor, musica ou tocadores de instrumentos musicais. Não! Muitas vezes o que há nisso é exibicionismo e apresentação, mas nada de reverente temor a Deus. Recentemente aconteceu algo inusitado no momento do culto numa determinada igreja evangélica brasileira. Nada mais do que um Sílvio Santos, adaptado aos interesses daquela igreja, entra em cena e começa a interagir com outro apresentador e com o público presente na igreja. Fico me perguntando e pergunto a você, querido leitor, “isso é adoração a Deus” ou o secularismo vivo na igreja?

A quarta marca que identifica uma igreja verdadeira é se ela preza ou prioriza a ortodoxia doutrinária. Nesse ponto enfatizo o ensino exclusivamente bíblico e correto. Em Atos 2.42 é dito que os crentes da igreja primitiva perseveravam na doutrina, ou seja, no ensino dos apóstolos. A palavra grega empregada para doutrina, nas páginas do Novo Testamento é “didachê, cujo sentido é ‘instrução’, ‘ensino’ ou ‘doutrina’ (Mc 1.22, 27;  11.28; Jo 7.16, 17; Mt 22.33). A igreja cristã primitiva usava o vocábulo didache para referir-se ‘a doutrina dos apóstolos’ (At 2.42) ou a ‘doutrina do Senhor’ (At 13.12), que era, na verdade, a exposição do evangelho de Cristo”’.[2]
As doutrinas dos apóstolos eram simples, bíblica, ortodoxa. Basicamente, tratava-se da promessa do Messias e seu cumprimento em Jesus, promessas bíblicas do Antigo Testamento, vida, obra, morte e ressurreição de Jesus, piedade cristã, santidade de vida, práticas cristãs entre outros. Com o apóstolo Paulo, as doutrinas fundamentais e profundas que estavam implícitas foram tomando corpo e sendo apresentadas aos crentes. Os crentes da igreja cristã primitiva não deveriam ficar na ociosidade da mente, mas aprender quais eram as doutrinas apostólicas e coloca-las em prática.
Não podemos perder de vista a importância da instrução bíblica sólida. Charles Swindoll, no livro A Noiva de Cristo, página 46, diz que certos ministros de Cristo hoje em dia “apresentam o evangelho, oferecem encorajamento, patrocinam eventos, mantém um calendário cheio de atividades, e ajudam os que sofrem... nada errado com qualquer um dessas coisas. Mas elas não devem substituir a instrução do Livro. Ovelhas bem alimentadas tem maior tendência de permanecer saudáveis. Ovelhas esfomeadas e abatidas são presas fáceis para seitas, sem nem falar em sua incapacidade de enfrentar as numerosas batalhas das provações da vida”.  
II – Conselhos
Essas são algumas marcas da verdadeira e genuína igreja cristã e foi analisada a partir do padrão, a Bíblia. Compare a sua igreja com estas e examine se ela se enquadra nelas. Existem outras marcas que identificam uma igreja verdadeira, mas estas são suficientes para ajudá-lo a ver se a igreja onde congrega é genuinamente cristã ou não. Sugiro também que compare outras igrejas com essas marcas de identificação e determine a veracidade delas. Acredito que será capaz de perceber a diferença. Seja honesto com você mesmo. Caso descubra que a igreja onde você é membro não possui essas marcas de identificação ou uma marca ou outra não se encontre ali, ela pode não ser uma igreja verdadeira, conforme o padrão estabelecido na Bíblia Sagrada. Busque com amor outro lugar onde perceba a honestidade e a fidelidade bíblica.
Por outro lado pode ser que a igreja onde congrega seja genuinamente cristã, mas que perdeu sua identidade ao longo do tempo. Entre os perigos que ameaçam a igreja estão 1) a perda e o esfriamento do amor e 2) a perda do temor a Deus. Conheço muitas pessoas competentes, bons líderes, detentores de dons maravilhosos, mas que não fazem mais nada para a obra de Deus, pois foram vítimas do esfriamento do amor. Pergunto a você leitor: Você prega o evangelho? Frequenta os cultos da sua igreja? Você conhece as doutrinas da Bíblia Sagrada? Você é músico na igreja? Tudo isso é muito bom, mas se não amas a Cristo e a sua obra e se não faz a obra de Deus com amor tudo pode não passar de ilusão. Meu conselho é que voltes ao primeiro amor, valorizes o estar a sós com Deus e então coopere na igreja onde congrega, a fim de abençoar o povo de Deus ali e ser útil ao ministério local.
Concluo tomando as palavras do pastor Wagner Gaby: “Conservemos a sã doutrina, pois o inimigo tenta macular a Noiva de Cristo mediante as heresias, modismos e costumes mundanos. Sigamos o conselho de Paulo a Timóteo: ‘Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina; persevera nestas coisas; porque fazendo isto, te salvarás, tanto a ti mesmo como aos que te ouvem”’ (I Tm 4.16). Meu conselho é que não vá na onda das igrejas preocupadas simplesmente em promover eventos, festas para entreter as pessoas, shows para “segurar” os jovens e adolescentes, que não desvalorize a importância da Bíblia no culto, que prefira pregações expositivas e não as que simplesmente mexam com os seus sentimentos, que veja Deus como Ele é em seu atributos e não um Pai fraco e inseguro a ponto de sofrer se não nos prosperarmos financeiramente. Que Deus tenha piedade das igrejas que perderam sua identidade, que os líderes delas revejam seus atos à luz da Bíblia e que Deus conceda a graça de preservá-la em nossas igrejas.


[1] SOARES, Esequias. Heresias e Modismos. Ed: CPAD, p. 220.
[2] ANDRADE, Claudionor Correa de. As Verdades Centrais da Fé Cristã. Ed: CPAD, p. 4 (Lição Bíblica – Mestre).

Nenhum comentário:

Postar um comentário