terça-feira, 16 de agosto de 2011

PODEMOS CHAMAR O CRISTIANISMO DE RELIGIÃO?

Por Gilson Barbosa
Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.
Tenho observado que muitos evangélicos evitam denominar o cristianismo de religião. A discussão e o desentendimento repousam sobre o binômio religião-relacionamento. Dizem que não praticam uma religião, mas um relacionamento com Deus. Tudo indica que há um problema conceitual envolvido no entendimento evangélico. O dilema está no quê significa religião e como conceituá-la.
Neste caso, a religião é definida como “um jugo pesado e desnecessário colocado por homens sobre as pessoas, na tentativa inútil de agradar a Deus por meio de regras, rituais, dogmas e alcançar a salvação pelas obras”. Por que todas as religiões possuem estas características o cristianismo, então, não é uma religião, mas um relacionamento pessoal com Jesus Cristo. Apesar dessa idéia ser comumente aceita e divulgada no meio evangélico fico me perguntando se ela é legítima. Quais as implicações de denominar o cristianismo de religião? “Evangélico”, não pode vir a ser um termo que também, devido às atitudes pessoais do crente, passe a se enquadrar na categoria de religião? Então quê problema há em denominar o cristianismo de religião?
O problema dos evangélicos com a religião
Entre os cristãos, essa antipatia à “religião” é exclusiva dos evangélicos. Os católicos romanos, os ortodoxos orientais e o protestantismo nunca intencionaram alegar que o cristianismo “não é uma religião”. Os “reformadores” protestantes não se opuseram ao termo “religião”, mas na verdade usaram-no para se referir à fé cristã. Fico curioso em saber, por que os evangélicos modernos acham este termo tão repugnante ao referir à sua fé!!!
Analiso que em parte pode ser o resultado de tentativas passadas em compartilhar o evangelho com pessoas que não gostam da “religião organizada”. Entendem que os métodos, estratégias, programas, agendas, “engessam” a liberdade do Espírito Santo nas reuniões e inibem sua operação na conversão do pecador. Mostrar e apresentar o cristianismo como uma religião provocaria resistência nas pessoas em relação a qualquer discussão sobre Jesus e, finalmente elas se tornariam hostis para com a perspectiva de se tornarem cristãos. É muito comum no culto o pregador dizer aos visitantes não evangélicos: “não estamos te oferecendo uma religião ou tentando fazê-lo mudar de religião, mas lhe apresentando as Boas Novas de salvação em Cristo”. Estas, não poderiam nascer de uma religião? O cristianismo não poderia ser a única religião verdadeira?
No entanto, o cristianismo possui regras, métodos, procedimentos, rituais, um Deus, um livro Sagrado, códigos de conduta, ética, e então penso modestamente que isso é sinônimo de uma religião. Noto que tudo isto não é errado em si, pois a natureza da religião demanda estas coisas. No cristianismo há todos os elementos naturais da religião, no entanto sua essência está numa maneira correta de relacionar-se com Deus e os seus elementos apenas fazem parte dela. 
A maioria dos evangélicos iguala “religião” com “religiosidade”, ou seja, a mera observância externa das regras e ritos, sem um coração temente e aberto a Deus. Se for a religiosidade que eles estão condenando e reprovando, então está certo. O próprio Jesus condenou fortemente e veementemente a religiosidade (Mateus 23), e Deus lamenta no Livro de Isaías (29.13) a formalidade de alguns religiosos: "Esse povo se aproxima de mim com a boca e me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. A adoração que me prestam só é feita de regras ensinadas por homens”. Sem dúvida isso descreve bem o que é religiosidade.
O que as Escrituras dizem?
Não é correto igualar totalmente “religião” com “religiosidade”, e daí concluir que todas as religiões são ruins e perniciosas. A Bíblia, que condena a religiosidade, não condena expressivamente a religião. Ao contrário, Tiago (1.27) indica que existe uma verdadeira expressão da religião, que ele define como segue:
“A religião pura e sem mácula aos olhos de Deus e nosso Pai é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas aflições, e conservar-se puro da corrupção deste mundo”.
Isso significa que o cristianismo é apenas uma religião, e não um relacionamento pessoal com Jesus? Claro que não! Não há razão pela qual não pode ser ambos, uma vez que não estão realmente em conflito, apesar de alguns evangélicos assinalarem positivamente. A verdadeira religião envolve uma relação com Deus, e é um equívoco ter um sem o outro.
O Antigo Testamento comprova que Deus não se opõe à “religião” e até mesmo às “regras e rituais” advindas dela. Nesse tempo, Ele mesmo estabeleceu apenas uma religião em contraposição às demais. A Toráh, os cinco primeiros livros do Antigo Testamento, está repleta de todos os tipos de ordens, prescrições, rituais, sacrifícios, rituais de purificação, etc. Não era isso que ele condenou, mas a banalização destes atos, a falta de entendimento essencialmente espiritual, entre outras. Ele estabeleceu uma religião complexa, completa, com cerimônias, hierarquia. É claro que ela não podia ser um substituto para um relacionamento com ele. A antiga religião judaica era para ser uma expressão de sua relação de aliança com Deus.
Nem Jesus fez oposição à religião de sua nação. Os Evangelhos nos dizem que ele mesmo observou o judaísmo do seu tempo. Ele manteve todos os mandamentos contidos na Lei de Moisés (Gl 4.4) e participava aos sábados na liturgia da sinagoga: “Ele foi a Nazaré, onde havia sido criado, e no dia de sábado entrou na sinagoga, como era seu costume. E levantou-se para ler” (Lc 4.16; Mc 1.21; Jo 6.59).
Jesus também fez a peregrinação a Jerusalém para as grandes festas judaicas (Lc 2.41, 42; Jo 2.13; 5.1; 7.2-10; 10.22, 23) e comemorou o Seder de Pessach[1] (Lc 22.7 -15), uma refeição com um ritual completo, orações escritas e hinos. As observâncias religiosas não interferiam no seu “relacionamento pessoal” com Deus, o Pai, mas sim, eles estavam perfeitamente integrados na mesma. Quando Jesus repreendeu os escribas e fariseus, estava apenas condenando a religiosidade vazia que alguns deles exibiam. Naturalmente, não estava condenando a religião judaica em si, mas sim naquilo que as autoridades religiosas a tinham tornado.
Depois que Jesus subiu aos céus, seus discípulos seguiram seu exemplo. Eles foram ao Templo para adorar a Deus diariamente, até que foram expulsos (Lc 24.52, 53; At 3.1), e passaram a reunir-se diariamente nas casas. É claro que isso foi apenas inicialmente, até que judaísmo e cristianismo se mostraram excludentes. As Escrituras registram o seguinte sobre os primeiros crentes, mesmo depois de Pentecostes:
“Portanto, aqueles que receberam a sua palavra foram batizados, e lá foram adicionados naquele dia cerca de três mil almas. E eles perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações .... E dia a dia, freqüentar o templo e partindo o pão juntos em suas casas, eles participavam de alimentos com coração alegre e generoso, louvando a Deus e na graça de todo o povo” (At 2.41-47).
Conforme esta passagem, a Igreja nascente tinha doutrina (doutrina dos apóstolos), rituais (batismo e “partir do pão”), a oração comunitária e adoração no templo. Acaso estas coisas não são elementos de uma religião? As atitudes dos discípulos nada têm a ver com religiosidade fria e vazia, pois aqueles elementos, e muitos outros, eram parte da sua relação vital com o Senhor ressuscitado.
Se Deus ordenou a religião do antigo Israel, se Jesus a observou, e se os primeiros cristãos tinham rituais religiosos, então a religião não pode ser ruim ou oposição a um relacionamento com Deus. O Cristianismo não é “nem somente uma religião ou somente uma relação com Deus”, é “tanto uma religião quanto um relacionamento”!
Revendo os conceitos
A religião verdadeira não é ofensiva a Deus. A verdadeira religião seria mais bem definida como uma crença no Deus Único e Verdadeiro que nos leva a adorá-Lo (sozinho e como uma comunidade), obedecer aos Seus justos mandamentos e amar o nosso próximo como a nós mesmos. Alguém disse que quando o Espírito Santo vai embora do Templo (isto é, quando termina o culto) o que sobra é a religião. Não concordo com essa frase, pois pode e deve existir evangélico com atitudes meramente religiosas no momento do culto. O problema não está nos bancos da igreja, no púlpito, no tanque batismal, na aparelhagem de som, mas na intenção com que cultuamos a Deus. Creio que um relacionamento mecânico e técnico com Deus provavelmente esconde uma religiosidade pessoal e um falso relacionamento com Deus. Isso é possível até mesmo entre os evangélicos.
Na verdade o cristianismo é uma grande família dos seguidores de Cristo nessa terra (At 11.26). Então, escute meu conselho: vá regularmente aos cultos, participe das atividades sociais, cante nos grupos de louvores, seja batizado em águas, figure no rol de membros, participe da Ceia do Senhor, lecione nas escolas bíblicas, pregue sermões, evangelize os perdidos, entregue o dízimo do Senhor, seja teologicamente ortodoxo, obedeça à hierarquia da igreja. Desta forma Deus nos concederá (ao cristianismo) graça para não sermos apenas mais uma religião, mas a única religião verdadeira.
Em Cristo Jesus,


[1] A festa de Pessach – celebrada por 8 dias, quando fora de Israel, e 7, em Israel – possui, como ponto central, a realização do seder, jantar especial que, pela simbologia, conta toda a história da escravidão e da conquista da liberdade. A realização do seder; que significa ordem, é um jantar que segue uma ordem determinada, contando a história da saída do povo judeu do Egito


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