segunda-feira, 14 de março de 2011

A VINDA DE JESUS E A MÍDIA

Ricardo L. V. Mascareñas*

Ao longo dos últimos anos, o interesse pela escatologia tem variado entre o muito e o pouco de forma cíclica, e a imprensa tem tido um papel determinante nesta variação. Em alguns momentos da história recente, o noticiário diário gerou nas pessoas grande interesse pela escatologia (doutrina das últimas coisas), e as manchetes exerceram influência na percepção que se tem da proximidade da vinda de Jesus. Durante as semanas seguintes aos ataques terroristas de 11 de setembro, a guerra no Afeganistão a seguir, em 2001, e a tomada do Iraque pelos EUA neste ano, a escatologia reconquistou espaço nos púlpitos e nas livrarias, em decorrência da grande inquietação gerada. Isto porque o impacto das imagens nos noticiários produzira uma forte sensação de que o mundo poderia estar entrando num ciclo de guerras e tragédias que poderia significar o prenúncio da vinda de Jesus.

A medida do interesse pela escatologia fora, portanto, proporcional ao efeito emocional provocado pelas notícias, principalmente pelas imagens que as acompanhavam e pelo espaço que elas ocupavam no noticiário diário. Durante as três primeiras e decisivas semanas da invasão anglo-americana no Iraque, a imprensa dedicou um espaço tão grande à cobertura do conflito que, somado ao espaço crescente que a epidemia asiática veio ganhando, produziu o mesmo efeito de dois anos atrás: o aumento do interesse pela escatologia em decorrência da volta da sensação de que o retorno do Senhor é iminente. Esta sensação é tanto maior quanto mais superficial for a análise que fizermos dos fatos que testemunhamos na atualidade.

A invasão do Iraque e seus desdobramentos com os riscos que representam para a estabilidade política no Oriente Médio, a animosidade contra o Ocidente nos países de maioria muçulmana, o olho por olho e dente por dente entre palestinos e israelenses, os atentados terroristas e as constantes ameaças destes, os conflitos tribais na África, os conflitos separatistas na Ásia, a guerra civil na Colômbia, a violência promovida pelo narcotráfico nos grandes centros urbanos, a crescente marginalização gerada pelo desemprego, a epidemia asiática, a freqüente ocorrência de catástrofes naturais como terremoto e constantes relatos de tragédias e calamidades nos trazem facilmente a sensação de que vivemos um momento apocalíptico.

Na verdade, esta sensação de que tudo está pior é conseqüência da incrível evolução das comunicações ao longo do último século. Hoje, imagens de tragédias de todos os tipos que ocorrem em todo o mundo chegam até nós, e de maneira muito rápida. Em nossos dias, ficamos sabendo de algo importante que ocorra no Zimbábue ou na Indonésia mais rapidamente do que ficaríamos sabendo o que ocorreria em nossa cidade se vivêssemos há cem anos.

Muitos, quando analisam os fatos do presente sob o ponto de vista da escatologia, desprezam os últimos dois milênios da história da humanidade ou, então, fundamentam-se em sensações e impressões, não em dados objetivos. Sensações e impressões freqüentemente nos conduzem a conclusões equivocadas. Por exemplo, a maioria de nós, brasileiros, acha que vive em um país onde a natureza é tranqüila, onde poucas mortes acontecem em conseqüência de catástrofes naturais, pois aqui não ocorrem tornados, furacões, maremotos, terremotos e erupções vulcânicas, freqüentes em tantos lugares, como nos EUA. Entretanto, esses fenômenos matam nos EUA (com 270 milhões de habitantes), por ano, em média, menos do que as chuvas e suas conseqüências no Brasil.

Deixando as sensações e impressões de lado, e partindo de dados históricos, façamos uma análise simples e objetiva que nos dará uma dimensão da diferença entre a realidade de vida de hoje e do passado. Em 1956, começou a ser comercializado o primeiro anticoncepcional oral; nos anos seguintes, disseminou-se os DIUs e outros métodos contraceptivos; e, em alguns países populosos, como na China, políticas de controle de natalidade passaram a ser implantadas com rigor. Apesar disso, a população mundial cresceu de aproximadamente dois bilhões, em 1950, para seis bilhões, em 2000, o que representa uma progressão geométrica de razão três a cada cinqüenta anos, mais ou menos. Quando Jesus proferiu seu Sermão Profético, a população mundial era algo em torno de cem milhões. Se a taxa de crescimento nas gerações seguintes à dos apóstolos tivesse sido a mesma observada na segunda metade do século XX, o mundo alcançaria os seis bilhões que tem hoje há mais de 1700 anos. Qual a razão para não ter havido a mesma taxa de crescimento? A resposta está no Sermão Profético: guerras, fomes e epidemias.

Nem preta nem branca, a realidade é cinza. Pode ser cinza claro, como nos dias de hoje, ou bem escuro, como no passado. Ao estudarmos escatologia, temos de abandonar a tendência de definir conceitos de maneira fechada, evitando o “tudo ou nada”. Sempre houve e sempre haverá guerras, fomes, epidemias, terremotos, terrorismos, violências de todos os modos e todos os tipos de tragédia e iniqüidade, mas, em termos absolutos e relativos, a realidade hoje está um cinza muito mais claro do que em qualquer outra época.

Analisemos, então, a realidade atual; depois veremos o que a Palavra de Deus nos diz sobre a realidade na época da Segunda Vinda. A invasão do Iraque, por exemplo, foi conduzida, sob o julgamento da opinião pública mundial, de uma forma tal que causou um número relativamente pequeno de mortes, principalmente entre civis. Até há algumas décadas, não havia esta preocupação nas guerras. O que levou, por exemplo, os aliados a bombardearem as cidades alemãs, durante a Segunda Guerra Mundial, tendo como alvo os civis, e os americanos a fazerem o mesmo nas cidades de Hiroshima e Nagasaki, lançando as bombas atômicas sobre populações indefesas? Quanto à epidemia asiática, ou Síndrome Respiratória Aguda Grave, em poucos meses já se identificou seu agente causador e as medidas de contenção foram tomadas. O número de mortes foi enorme, mas não há como compará-la às grandes epidemias do passado.

Até há pouco mais de meio século, não havia o conhecimento e a tecnologia para lidar com a maioria das epidemias, e, assim, pouco ou nada podia ser feito. Deste modo, ao longo da História, inúmeras epidemias alternavam-se dizimando milhões de pessoas a cada geração. Se compararmos a realidade atual, em seus dados objetivos, com a realidade no passado, perceberemos que vivemos em uma época privilegiada. Por exemplo, a expectativa média de vida nos países mais pobres do mundo de hoje é superior ao que foi a expectativa média de vida da aristocracia na Europa durante a maior parte da Idade Média; e a mortalidade infantil nos piores países da atualidade equivale a um terço do que fora para muitas gerações no período medieval.

Vejamos agora o que a Palavra de Deus nos diz sobre a época em que ocorrerá a volta de Jesus: “E, como aconteceu nos dias de Noé, assim será também nos dias do Filho do homem. Comiam, bebiam, casavam, e davam-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca, e veio o dilúvio, e os consumiu a todos. Como também da mesma maneira aconteceu nos dias de Ló: Comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam e edificavam” (Lc 17.26-28)  Neste texto, nosso Senhor deixa claro que sua vinda ocorrerá num contexto de relativa paz, quando as pessoas estarão aproveitando o presente e planejando o futuro como se fossem viver muito. “E, quando ouvirdes de guerras e sedições, não vos assusteis. Porque é necessário que isto aconteça primeiro, mas o fim não será logo” (Lc 21.9; grifo do autor).  Aqui Jesus também sugere que seu retorno não se dará num contexto de guerras e revoluções generalizadas. Observe agora a razão da ênfase que Jesus dá à vigilância: “E olhai por vós, para que não aconteça que os vossos corações se carreguem de glutonaria, de embriaguez, e dos cuidados da vida, e venha sobre vós de improviso aquele dia” (Lc 21.34; grifo do autor).

Não é em meio a grandes tragédias ou em um contexto de guerras de grandes proporções que mais provavelmente nos sobrecarregaremos de glutonaria, de embriaguez e dos cuidados da vida, mas, sim, num contexto de relativa paz. Pois este contexto não existiu por mais de dezessete séculos, do declínio do Império Romano, no século III, até há poucas décadas.

Quando estudamos o Sermão Profético, devemos considerar todo o contexto cultural, social, econômico, político e militar da época em que Jesus e seus discípulos viviam. Ele profetizou sobre coisas que eram bem distintas da realidade de sua época, pois eles viviam em um vasto império onde reinavam a paz e a ordem, garantidas pela supremacia militar absoluta do exército romano. Isto começou a mudar no final do século II. Além disso, devemos observar que, em seu Sermão Profético, Jesus usou o recurso que alguns profetas do Antigo Testamento usaram, a “condensação profética”, que consiste em descrever os fatos que ocorrerão ao longo de muitos séculos de forma condensada. Daniel, por exemplo, profetizou sobre a divisão do Império Grego e a Revolta dos Macabeus. Estes dois fatos ocorreram em épocas muito distantes da de Daniel, e distavam entre si um século e meio. Assim, Jesus profetizou os acontecimentos que ocorreram ao longo de dezenas de gerações. E, quando falou de guerras, fomes, epidemias e grandes terremotos, Ele referia-se a esses flagelos, que sempre existiram, mas em grandes proporções.

Em termos de mortes e atrocidades, as guerras da atualidade não se comparam às milhares de guerras do passado, muito menos às guerras generalizadas, como, por exemplo, a Guerra dos Trinta Anos, as guerras napoleônicas e as duas grandes guerras do século XX. E a fome de hoje mata, em termos absolutos e relativos, muito menos do que no passado, quando esse flagelo dizimava populações inteiras.

Quanto às epidemias, como comparar as atuais com as pandemias de Peste dos séculos VI e XIV, ou com a Gripe Espanhola, de 1918 a 1919? Sem contar que, até o advento dos antibióticos e das vacinas, no século passado, pouco podia ser feito na maioria das epidemias. Apenas assistia-se à morte das pessoas, o que aterrorizava as populações no campo e na cidade.

Quando estudamos a história da humanidade nos últimos vinte séculos, entendemos o motivo que levou Jesus a sintetizá-la em guerras, fomes, epidemias e grandes terremotos. Nenhum outro flagelo ceifou mais vidas humanas do que qualquer um destes quatro. O curso da História foi determinado por guerras, fomes e epidemias. Impérios, reinos e nações surgiram e desapareceram pelas guerras. O mapa geopolítico do mundo atual foi, em sua maior parte, definido por meio das guerras. Uma boa parte das milhares de guerras ocorridas ao longo dos últimos dois milênios foi provocada por líderes megalomaníacos ou falsos messias e, muitas vezes, sob influência determinante de fomes e epidemias de grandes proporções. Ou, ainda, influenciadas por religiões de “enganadores”. Também ocorreram, com muita freqüência, fomes devastadoras e grandes epidemias como conseqüência das guerras. Assim, fomes e epidemias freqüentemente estavam relacionadas com as guerras, ora como causa, ora como conseqüência, ora como ambas.

O interesse pela escatologia tem sido e continuará sendo cíclico: surgirá um fato de grande impacto emocional, como guerra, ou terrorismo, ou epidemia, ou terremoto de grande proporção, que gerará um forte sentimento apocalíptico. Passado algum tempo, o efeito do impacto emocional desaparecerá, o que proporcionará o contexto ao qual Jesus refere-se como semelhante ao dos dias de Noé. Pois é neste contexto que a exortação enfática à vigilância que há na Palavra de Deus ganha mais importância. Jesus voltará quando menos se espera.

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* Autor do livro Os últimos dias, obra indicada ao Prêmio Abec 2002.


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