sexta-feira, 11 de março de 2011

O CONCÍLIO DE JERUSALÉM

Por Gilson Barbosa
Prefiro denominar a reunião de Atos 15 “Concílio de Jerusalém”, ao invés de Primeiro Concílio da Igreja. Quando enfatizamos Primeiro Concílio, dá idéia de que validamos os demais Concílios, quando na verdade nós protestantes aceitamos como autoridade os assuntos solucionados ortodoxamente e não os Concílios em si.
Concílios Católicos Romanos
O termo Concílio é uma transcrição da palavra latina concilium referindo-se à convocação de assembléia e synodos é seu correspondente em grego e significa “caminhar juntos”. Segundo alguns estudiosos “os católicos reconhecem 21 concílios, as Igrejas ortodoxas não reconhecem senão os sete primeiros, a Igreja anglicana e as Igrejas protestantes, apenas os quatro primeiros”.[1]
No entanto é de se perguntar: Os protestantes reconhecem os quatro primeiro Concílios em que sentido? Os oito primeiros concílios foram:
1 – O Concílio de Nicéia (325) – a discussão do assunto foi contrário a heresia trinitária de Ário.
2 – O Concílio de Constantinopla (381) – O Credo elaborado contra a heresia ariana é completado com o artigo sobre o Espírito Santo.
3 – O Concílio de Éfeso (431) – A discussão de que Maria não é só “mãe de Cristo”, mas “mãe de Deus”.
4 – O Concílio de Calcedônia (451) – O tema da discussão foi a Cristologia, ou seja, Cristo é verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem.
5 – O Concílio de Constantinopla II (553) – A condenação de certos autores cristológicos.
6 – O Concílio de Constantinopla III (680-681) – Este completou o de Constantinopla II, afirmando a vontade humana livre em Cristo.
7 – O Concílio de Nicéia II (787) – Aprovou o culto das imagens.
8 – O Concílio de Constantinopla IV (869-870) -       condenou o Bispo Fócio.
Os oito primeiros Concílios são chamados de ecumênicos e foram “convocados por Imperadores, as suas decisões tornaram-se leis imperiais, as deliberações foram presididas por bispos, foram realizados no Oriente, com pequena ou nenhuma participação dos bispos do Ocidente, os representantes dos bispos de Roma, que não participaram pessoalmente de nenhum, tinham posição privilegiada e assinavam as atas em primeiro lugar”.[2]
Desta maneira penso ser salutar o entendimento de que apesar de alguns dos assuntos discutidos nos Concílios serem ortodoxos, pela natureza burocrática que permeou a convocação, por conta dos bastidores internos que o envolveu, pelo crescimento e progresso de uma intenção mais romana do que cristã, os protestantes deveriam reconhecer apenas o Concílio de Jerusalém. Repito: Reconhecer o assunto discutido e a solução que foi apresentada é uma coisa e reconhecer o Concílio em si outra. Qual é a postura e opinião do leitor acerca disso?
CONCÍLIO DE JERUSALÉM
Já comentei que no início da Igreja Primitiva os crentes eram hebreus que iam se convertendo ao evangelho. Com o crescimento e expansão da igreja, estrangeiros, denominados de gentios, também foram alcançados pela mensagem de salvação. Ocorre que, diferente dos judeus, os gentios eram pagãos, idólatras, imorais e seu modo de viver causava repulsa aos judeus. O apóstolo Paulo diz a Pedro que eles eram judeus “por natureza e não pecadores dentre os gentios” (Gl 2.15) declarando com isso o elevado padrão de conduta dos judeus em detrimentos dos gentios, conforme quadro caótico registrado em Romanos 1.18ss.
Como conviveriam, na igreja, pacificamente dois grupos totalmente diferentes? Logo surgiu a questão de que os gentios deveriam ser aceitos no seio da igreja, mas com ressalvas de que teriam de aceitar as práticas oriundas do judaísmo: alimentação, rituais, cerimônias, hábitos, costumes entre outros. O assunto era gravíssimo. Se as autoridades, da igreja nascente, cedesse à pressão dos judaizantes o genuíno evangelho certamente teria sido comprometido e afetado. Paulo chega a ponto de dizer aos gálatas “Ó insensatos gálatas! quem vos fascinou para não obedecerdes à verdade, a vós, perante os olhos de quem Jesus Cristo foi evidenciado, crucificado, entre vós?” (Gl 3.1).
Paulo tinha convicção de que a salvação compreendia todos os povos, em todos os lugares: “Porque ele [Jesus] é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derrubando a parede de separação que estava no meio” (Ef 2.14), mas muitos dos judeus que aceitavam a Cristo não entendiam assim.
A razão da convocação está registrada em Atos 15.1: “Então alguns que tinham descido da Judéia ensinavam aos irmãos: Se não vos circuncidardes, segundo o rito de Moisés, não podeis ser salvos”. O fato não era que os gentios não podiam fazer parte da igreja, mas sim, que para serem salvos deviam crer em Jesus e também praticar os costumes judaicos. Paulo jamais aceitaria tal prescrição. Para resolver esse assunto “resolveu-se que Paulo e Barnabé, e alguns dentre eles, subissem a Jerusalém, aos apóstolos e aos anciãos” (15.2).
1 – Os fariseus modernos – Até parece brincadeira, mas a mesma questão ronda a igreja ainda em nossos dias atuais. Há crentes e líderes muito santificados ou espiritualizados que também ensinam e pregam publicamente que a salvação depende de uma série de obediências às regras, estatutos sociais da Igreja, usos e costumes, tradições humanas. O limite entre o bom senso da prática cristã, em termos de costumes, tradições orais, etc, e a importância de se observar as doutrinas bíblicas e teológicas, são desrespeitadas. Até mesmo o termo doutrina tem sido “violentado”. Confundem-se doutrinas com usos e costumes, a ponto de alguém que queira enfatizar os costumes na igreja dizer que esta não tem doutrina.
Esse assunto é muito sensível, pois fatalmente cai na subjetividade individual. Cada um avalia a validade dos usos e costumes conforme “eu penso”. Sinto que essa postura é tanto sentimentalista quanto pragmática e isso jamais deveria ser assim. Adianto que sou a favor de um bom discipulado, estudo teológico, bíblico, que os crentes sejam participantes de escola bíblica dominical, pois desta maneira formamos crentes maduros suficientemente para terem o desejado bom senso e não serem vítimas de abusos, interpretações bíblicas arbitrárias e coerção sob forma de tradições humanas.
Respeito as ordens de lideranças quanto aos usos costumes, mas numa pesquisa superficial observamos algumas imposições até coerentes, outras abusivas, coercivas. Veja nesse Regimento Interno de uma determinada denominação alguns deles - este é apenas um dentre outros regimentos complexos:
“Art 35 – 3º Uso de trajes indecorosos para senhoras, moças, meninas, rapazes, jovens e homens; 4º Uso de calças longas será permitido as mulheres, quando tal exigência originar-se nas escolas ou trabalho; 5º) Corte exagerado do cabelo por senhoras, moças ou meninas; 6º Uso de pintura no rosto, lábios e unhas; 7º) Uso inconveniente de jóias; 8º Homens e jovens andarem cabeludos e barbudos; 23º) Contrair núpcias com membros de outra denominação”.
A SOLUÇÃO EM ATOS 15.20 APLICA-SE À IGREJA ATUAL?
O teólogo Myer Pearlman (COMENTÁRIOS SOBRE ATOS: CPAD) afirma que a solução encontrada pela Igreja de Jerusalém intencionou demonstrar aos crentes gentios a importância de considerar pelos menos duas soluções encontradas para o bom convívio entre judeus e gentios no interior da igreja: evitar alimentar-se de carne sufocada e do sangue, ou seja, os judeus não comiam carne se o sangue não tivesse sido retirado, nem a de animais estrangulados ou que morriam por doença. Segundo Pearlman “a comunhão diária seria bem mais possível se os gentios fizessem concessões com respeito à alimentação”. É certo que não se tratava de observar os dois itens culturais como exigências para alcançar salvação, mas para um convívio pacífico.
Tendo em vista que o Concílio foi local, envolvendo uma questão local, com assuntos válidos para aquele contexto, pergunto se as prescrições do Concílio têm validade para a Igreja atual, ou são apenas injunções sem imposição doutrinária. Muitos ensinam, baseado no texto de Atos 15.20, que é proibido aos crentes se alimentarem de chouriço, frango ao molho pardo, carne com sangue, etc. No entanto, parece que as prescrições cabem apenas aos gentios daquela igreja.
Myer Pearlman prossegue afirmando “que isto não significa que o tipo de alimentação que alguém come tem alguma coisa a ver com a salvação (Rm 14.14, 17,20). Um outro importante teólogo e apologista informa que “a única restrição alimentar dos cristãos está na determinação do Concílio de Jerusalém (At 15.20,28), com relação ao sangue, carne sufocada e sacrificada aos ídolos. Mesmo assim, essa determinação parece mais injunções do que ordenanças obrigatórias (Rm 14.13-16; I Co 8.7-13; 10.27-29), pois, Paulo defendia essa liberdade cristã (VV.14,20; I Co 10.25; I Tm 4.4,5)”[3]. Penso eu que o Concílio de Jerusalém foi importante para resolver assuntos pertinentes aos fatos contextuais e pontuais daquela época, porém, podemos praticar, detectar e aplicar os princípios ali estabelecidos. Não temos que praticar certos usos e costumes como fator decisivo para ser salvo (isso é legalismo), mas como bom senso, respeito e moderação. Nem devemos julgar, criticar e condenar nossos irmãos de denominações que não observam os usos e costumes que nossas igrejas observam. Tomemos cuidado com o legalismo!!!        


[1] REEBER, Michel. Religiões. SÃO PAULO. Ed: Ediouro, p.74
[2] Documentos dos Primeiros Oito Concílios Ecumênicos. PORTO ALEGRE. Ed: EDIPUCRS, P. 9
[3] Lições Bíblicas, Romanos, 2º Trimestre de 1998, p. 85 (Mestre).

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