quarta-feira, 16 de março de 2011

A EXPECTATIVA DO FIM NA HISTÓRIA DO CRISTIANISMO (Parte II)

Por Alderi Souza de Matos

O período da Reforma
Os principais reformadores protestantes contestaram muitas doutrinas da igreja medieval, mas não manifestaram maiores preocupações com a escatologia predominante, herdada de Agostinho. Todavia, Lutero afastou-se de alguns aspectos do amilenismo medieval. Por exemplo, ele questionou a glória da igreja histórica, cria que o papado era a manifestação do Anticristo e entendia a vinda do Senhor como uma ocasião feliz, e não como um dia de ira. Como Lutero, Calvino rejeitou explicitamente a posição milenista, considerando-a infantil e equivocada. Ele cria que a idéia do milênio impõe um limite ao reino de Cristo. Em grande parte, a escatologia de Calvino concentrou-se no futuro dos indivíduos. Nas Institutas da Religião Cristã, ele aborda a ressurreição final no contexto de uma seção mais ampla sobre como os indivíduos recebem a graça de Cristo. Para ele, a escatologia tem um sentido prático, pois a meditação sobre a vida futura é um elemento essencial da vida cristã.

Muito diferente foi o entendimento desse assunto por parte de alguns anabatistas radicais. O episódio que mais contribuiu para dar uma reputação negativa ao anabatismo no século 16 ocorreu na cidade alemã de Münster. Tudo começou em 1530, quando Melchior Hoffman começou a pregar sermões apocalípticos em Estrasburgo anunciando a vinda literal e iminente do reino de Deus. Após três anos de pregação incessante, as autoridades o lançaram na prisão, mas os seus seguidores, os melquioritas, surgiram por toda parte. Um deles foi Jan Matthys, um padeiro de Haarlem, na Holanda. Proclamando ser Enoque, a segunda testemunha do livro do Apocalipse, ele começou a pregar de maneira agressiva e a enviar grupos de seguidores através dos Países Baixos. Dois deles, Jan van Leyden e Gerard Boekbinder, foram para Münster, onde o principal pregador da cidade, Bernhard Rothman, estava pregando idéias anabatistas a grandes multidões.

Ouvindo as notícias, Matthys teve a visão de que Münster deveria ser o local da Nova Jerusalém e mudou-se para aquela cidade com os seus seguidores. No início de 1534, após a fuga de parte da população católica e luterana, Matthys assumiu o controle da cidade. Iniciou-se um período de repressão que visava “purificar” a cidade, com rebatismos forçados, confisco de propriedades, queima de livros e a execução de um ferreiro pelo próprio Matthys. No domingo de Páscoa de 1534, acompanhado de alguns seguidores, Matthys atacou o exército do bispo que estava acampado fora da cidade, sendo imediatamente morto e decapitado. Jan van Leyden assumiu a liderança, ungiu a si mesmo rei, instaurou um reino de terror e introduziu inovações como a poligamia. No dia 25 de maio de 1535, o exército do bispo invadiu a cidade e matou quase todos os habitantes. Leyden e dois companheiros foram torturados até a morte com ferros em brasa. A esperança de uma Nova Jerusalém havia terminado em tragédia.

A experiência americana

Nos séculos 17 e 18, com o advento do Iluminismo, houve um forte declínio do entusiasmo apocalíptico que havia caracterizado o cristianismo europeu durante vários séculos. Todavia, do outro lado do Atlântico surgiu uma nova maneira de encarar a escatologia que ficou conhecida como “pós-milenismo”, a crença de que a segunda vinda iria ocorrer após o milênio de paz e prosperidade para a igreja, sendo este implantado com os esforços da igreja, auxiliada por Deus. O pós-milenismo revelou uma atitude de profundo otimismo com relação ao progresso da igreja e da sociedade e foi uma doutrina geralmente aceita pelos protestantes norte-americanos até a segunda metade do século 19. Ela dominou a imprensa religiosa, os principais seminários e grande parte dos ministros, além de estar implantada na mentalidade popular.

O primeiro articulador dessa doutrina nos Estados Unidos foi o famoso teólogo calvinista e pastor congregacional Jonathan Edwards (1703-1758). No contexto do Primeiro Grande Despertamento, do qual foi um dos principais personagens, Edwards anteviu uma era de contínuo avanço do evangelho até que, por volta do ano 2000, surgisse o milênio, um período de paz, notável conhecimento, santidade e prosperidade geral. A maior contribuição de Edwards foi o entendimento de que essa obra resultaria de uma combinação da atuação do Espírito Santo com o uso de meios como a pregação do evangelho e o cultivo dos “meios ordinários de graça”. Para ele, essa visão pós-milenista era um incentivo necessário para sustentar os melhores esforços da igreja.

A influência de Edwards continuou por várias gerações, principalmente após a Revolução Americana, quando surgiu um renovado interesse pela escatologia bíblica. Seu discípulo Samuel Hopkins publicou em 1793 um Tratado sobre o Milênio, dando grande ênfase ao ativismo social e expressando a convicção de que a grande maioria dos seres humanos iria converter-se. Suas expectativas pareceram confirmar-se com a ocorrência de um avivamento muito mais vasto nas primeiras décadas do século 19, o Segundo Grande Despertamento. Neste, o personagem de maior destaque foi o avivalista Charles G. Finney (1792-1875), que levou às últimas conseqüências a ênfase de Edwards no uso de meios por parte da igreja. Outro fervoroso partidário do otimismo pós-milenista, Finney entendia que o avivamento não era um fenômeno sobrenatural, mas resultava do uso apropriado de certas técnicas, as quais denominou “novas medidas”.

O contínuo progresso da nova nação norte-americana e a ocorrência de mais um avivamento em 1858 intensificou as esperanças pós-milenistas, que eram expressas nos termos mais triunfalistas possíveis. Porém, com a Guerra Civil (1861-1865) e os grandes problemas gerados pela imigração, urbanização e industrialização, o entusiasmo pós-milenista entrou em refluxo. Seus últimos vestígios se manifestariam no movimento do Evangelho Social, no início do século 20, que ainda insistiu em falar na conversão da sociedade e na implantação do reino de Deus na terra. O cenário estava preparado para o retorno triunfal do velho pré-milenismo abraçado por muitos cristãos antes de Agostinho.

A era dispensacionalista

Em meio ao pós-milenismo dominante, começaram a surgir nos Estados Unidos, ainda na primeira metade do século 19, diversos movimentos de natureza fortemente apocalíptica, como foi o caso dos mórmons (“os santos dos últimos dias”) e seu profeta Joseph Smith. Outro líder influente foi William Miller, um fazendeiro da Nova Inglaterra que, através do estudo da Bíblia e especialmente de Daniel 8.14, concluiu que Cristo iria voltar em 1843 ou 1844. A partir de 1838, a grande divulgação de suas idéias através de publicações e conferências despertou enorme interesse popular. Todavia, quando as suas previsões não se materializaram, os seus seguidores ficaram completamente desiludidos e amargurados com Miller, que morreu quase esquecido em 1849. Mesmo assim, alguns de seus simpatizantes permaneceram firmes. Um pequeno grupo da Nova Inglaterra, liderado por James White e Ellen G. White, concluiu que Miller estava certo quanto à data, mas errado quanto ao local. No dia 22 de outubro de 1844 Cristo de fato purificou o santuário segundo a profecia de Daniel, mas o santuário estava no céu, e não na terra. Cristo não apareceu na terra em virtude da não-observância do sábado por parte da igreja. Assim surgiu a Igreja Adventista do Sétimo Dia.

Mais importante para o evangelicalismo norte-americano e mundial foi o pré-milenismo dispensacionalista. As origens desse movimento remontam ao inglês John Nelson Darby (1800-1882), um talentoso líder dos Irmãos de Plymouth. Suas idéias foram popularizadas nos Estados Unidos por C. I. Scofield através da sua famosa Bíblia Anotada. Esse sistema derivou o seu nome do fato de dividir a história em diversas eras ou dispensações. Outra peculiaridade estava na convicção de que Deus tem dois planos completamente diferentes atuando na história: um para os judeus e outro para a igreja. Todavia, sua doutrina mais controvertida e distintiva é a do arrebatamento da igreja, quando Cristo virá para os seus santos, seguido da tribulação, da consumação do plano de Deus em relação aos judeus e da segunda vinda, quando Cristo virá com os seus santos. Então virá o milênio, seguido do juízo final e dos novos céus e terra.

Inicialmente, os evangélicos conservadores viram o dispensacionalismo com suspeitas. Todavia, a luta contra o liberalismo teológico aproximou os dois grupos, permitindo que os pré-milenistas fossem conquistando espaços. Em 1878, a Conferência Bíblica de Niagara aprovou uma declaração de fé que incluía, além de uma abertura para o pré-milenismo, ênfases evangélicas tradicio-nais como a autoridade das Escrituras e a necessidade da conversão pessoal. Apesar das suas diferenças na área da escatologia, fundamentalistas e pré-milenistas perceberam que possuíam muitas convicções comuns, o que os levou a firmar alianças por algum tempo. O pré-milenismo também foi auxiliado pelo apoio de líderes populares como o evangelista Dwight L. Moody e pela criação de institutos bíblicos. O fato é que, no final do século 19, o pré-milenismo parecia muito mais realista do que o pós-milenismo e os seus defensores apontavam para um grande número de problemas sociais como “sinais dos tempos” e evidências de que a sua posição era a mais correta.

O século 20

Um dos fenômenos mais importantes da história da igreja no século 20 foi o surgimento do movimento pentecostal, que teve como uma de suas características mais distintivas o falar em línguas. Curiosamente, os estudiosos apontam para o fato de que o pentecostalismo inicial tinha como enfoque principal a segunda vinda de Cristo. O dom de se expressar em outras línguas (xenoglossolalia) era visto simplesmente como um instrumento para a colheita final de almas antes do arrebatamento da igreja. Essa preocupação já estivera presente em Edward Irving (1792-1834), um pastor presbiteriano escocês que é tido como precursor do movimento carismático, e foi muito saliente nos primeiros líderes pentecostais, Charles Fox Parham e William J. Seymour. Depois de 1910, quando ficou claro que os missionários não estavam recebendo habilidades miraculosas de falar em outras línguas humanas, os pentecostais começaram a dar maior ênfase às línguas como evidência do batismo com o Espírito Santo e como uma linguagem devocional de oração. Mesmo assim, a preocupação escatológica não foi esquecida. Um exemplo disso é a Igreja do Evangelho Quadrangular, que tem como uma das quatro convicções básicas implícitas no seu nome a volta de Cristo.

Após a Segunda Guerra Mundial, o pré-milenismo despertou um interesse sem precedentes graças a fenômenos como as armas atômicas, a criação do Estado de Israel, a guerra fria entre os blocos capitalista e comunista e o surgimento da união européia. O número de publicações sobre o tema foi impressionante, com os autores oferecendo as mais diferentes interpretações dos eventos contemporâneos à luz das profecias bíblicas. Um grande campeão de vendas por muitos anos foi o livro de Hal Lindsay, A Agonia do Grande Planeta Terra (1970). Muitos filmes também foram produzidos nessa área, inclusive pela indústria cinematográfica secular. O fim da União Soviética em 1989 e o transcurso do ano 2000 apresentaram novos desafios e a necessidade de reinterpretações, como certamente também ocorrerá com os recentes atentados terroristas nos Estados Unidos e suas conseqüências. Os cristãos de todos as eras ficam imaginando se o fim dos tempos não irá chegar na sua geração. Não poderia ser diferentes em nossos dias, principalmente à luz de acontecimentos tão impressionantes que o mundo tem testemunhado. Importa que os seguidores de Cristo cumpram as solenes tarefas que lhes foram confiadas... até que Ele venha.

Alderi Souza de Matos, ministro presbiteriano, é doutor em história da igreja pela Universidade de Boston e historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil.
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