terça-feira, 15 de março de 2011

A PESSOA DE CRISTO (Parte I)

por Vincent Cheung

O Cristianismo bíblico afirma que Cristo possui duas naturezas, que ele é tanto divino quanto humano. Ele existe com Deus o Pai na eternidade como a segunda pessoa da trindade, mas tomou a natureza humana na ENCARNAÇÃO. O que resulta disso não compromete ou confunde a natureza divina com a humana, de modo que Cristo é totalmente Deus e totalmente homem, e permanecerá nessa condição eternamente. Às duas naturezas de Cristo subsistindo em uma pessoa dá-se o nome de UNIÃO HIPOSTÁTICA.

Algumas pessoas alegam que essa doutrina gera uma contradição; contudo, antes de providenciarmos respaldo bíblico para essa doutrina, vamos primeiro defender sua consistência lógica.

Recordemos nossas primeiras discussões sobre a Trindade. A formulação doutrinária histórica da Trindade diz: “Deus é um em essência e três em pessoa”. Essa proposição não é contraditória. Para haver uma contradição nós precisamos afirmar que “A é não-A”. Em nosso caso, isso se traduz assim: “Deus é um em essência e três em essência”, ouDeus é um em pessoa e três em pessoa”. Afirmar que Deus é um e três (não um) ao mesmo tempo e num mesmo sentido é contradizer-se. Porém, nossa formulação doutrinária diz que Deus é um em um sentido e três em um sentido diferente: “Deus é um em essência e três em pessoa”. Além disso, embora cada uma das três pessoas componha de forma completa um único Deus, a doutrina não se torna um triteísmo desde que ainda haja um único Deus e não três.

A “essência” na formulação acima se refere aos atributos divinos ou a cada definição de Deus, tanto que todas as três pessoas de Deus preenchem completamente a definição de deidade. Mas isso não implica em um triteísmo porque cada definição de deidade inclui o atributo ontológico da Trindade, de modo que cada membro não é um Deus independente. O Pai, o Filho, e o Espírito sãopessoas” distintas porque representam três centros de consciência dentro da Divindade. Portanto, embora os três participem completamente da essência divina de modo a formarem um [único] Deus, esses três centros de consciência resultam em três pessoas dentro desse único ser Divino.

De modo similar, a formulação doutrinária da pessoalidade e encarnação de Cristo diz que ele é um em um sentido e dois em um sentido diferente. Que ele é um em pessoa, mas dois em natureza.

Para esclarecer essa formulação doutrinária, nós precisamos definir os termos e compará-los à formulação doutrinária da Trindade. Do mesmo modo que “natureza” é usada na formulação doutrinária da encarnação, “essência” é usado na formulação doutrinária da Trindade. Eles se referem à definição de algo, e a definição de algo muda de acordo com os atributos ou propriedades desse algo. Pessoalidade é novamente definido pela consciência ou intelecto. Agora, a definição de Deus inclui o atributo ontológico da Trindade, e embora exista um só Deus, existem três pessoas divinas ocupando completa e igualmente os mesmo atributos que definem a deidade.

Na encarnação, Deus o Filho tomou para si a natureza humana; isto é, ele adicionou à sua pessoa a parte dos atributos que definem o homem. Ele fez isso sem sobrepor uma natureza a outra, de maneira que ambos os atributos permanecem independentes. Assim, sua natureza divina não se misturou à sua natureza humana, e sua natureza humana não foi divinizada por sua natureza divina. Essa formulação também protege a imutabilidade de Deus o Filho, uma vez que a natureza humana não modifica em nada sua natureza divina.

A objeção de que os atributos divino e humano necessariamente se contraditam quando possuídos por uma mesma pessoa falha em não perceber que esses dois atributos são independentes no Deus o Filho. Por exemplo, Cristo não era onisciente em relação a seus atributos humanos, mas era onisciente em relação a seus atributos divinos, e isso é verdade ainda hoje. Seus atributos divinos não divinizaram seus atributos humanos.

Essa formulação doutrinária da encarnação é imune à contradição, desde que nós não afirmemos que Cristo é um e dois ao mesmo tempo e num mesmo sentido. O que afirmamos é que Cristo é uma pessoa com dois tipos de atributos. Visto que essa formulação não degenera em uma contradição lógica, isto é estabelecido como verdade se pudermos demonstrar que Cristo é tanto Deus quanto homem através de exegese bíblica.

Iremos primeiro considerar algumas passagens que indicam a DEIDADE de Cristo. No início de seu Evangelho, o apóstolo João refere-se a Jesus Cristo como o logos , ou a Palavra :

“No princípio era aquele que é a Palavra. Ele estava com Deus, e era Deus. Ele estava com Deus no princípio. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele; sem ele, nada do que existe teria sido feito.” (João 1:1-3, NVI)

O verso 1 começa afirmando a pré-existência de Cristo, dizendo que ele existia antes do evento da criação. O próprio Cristo confessou sua pré-existência em João 8, dizendo, “Eu lhes afirmo que antes de Abraão nascer, Eu Sou” (v.58) A palavra Deus (grego: theos) nesse verso se refere ao Pai, e “a Palavra estava com Deus” indica que Cristo não é idêntico ao Pai em termos de sua pessoalidade. Contudo, ele não é menos que Deus em termos de seus atributos, pois o verso continua a dizer, “a Palavra era Deus.” Essa é uma indicação explícita da atribuição de deidade a Jesus Cristo. As palavras, “Ele estava com Deus no princípio”, no verso 2, novamente afirmam sua pré-existência e o fato de que ele é distinguível do Pai.

O verso 3 fala de Cristo como o agente da criação, dizendo, ‘Todas as coisas foram feitas por intermédio dele; sem ele, nada do que existe teria sido feito”. Isso concorda com a cristologia de Paulo, que escreveu em Colossenses 1:16, “Pois nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis,sejam tronos ou soberanias, poderes ou autoridades;todas as coisas foram criadas por ele e para ele”. Cristo não somente é o criador do universo, mas ele agora sustenta sua própria existência. Paulo diz que “nele tudo subsiste” (v.17). Foi através de Cristo que Deus “fez o universo” e é também Cristo que “sustenta todas as coisas por sua palavra poderosa” (Hebreus 1:2-3).

Colossenses 2:9 diz, “Pois em Cristo habita corporalmente toda a plenitude da divindade”. Tito 2;13 diz, “aguardamos a bendita esperança: a gloriosa manifestação de nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo”. Em Hebreus 1:3 lemos, “O Filho é o resplendor da glória de Deus e a expressão exata do seu ser”. Hebreus 1:8 faz uma aplicação messiânica do Salmo 45:6-7, quando Deus diz a Cristo, “O teu trono, ó Deus, subsiste para todo o sempre; cetro de eqüidade é o cetro do teu Reino”. Assim, o próprio Deus o Pai declara que Jesus é Deus, e diz que seu domínio é “para todo o sempre”. Finalmente, Paulo escreve em Filipenses 2:6 que Cristo, “embora existindo na forma de Deus,” tomou sobre si atributos humanos.

Continua ...

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