terça-feira, 15 de março de 2011

O UNGIDO DO SENHOR: OS LIMITES DA AUTORIDADE ESPIRITUAL (Parte II)

O que significa: “não toqueis nos meus ungidos?”

Diante destes fatos é fácil concluir que a expressão bíblica “não toqueis nos meus ungidos, nem maltrateis os meus profetas” está sendo mal interpretada. Evidentemente que ela não foi dada para proteger desvios doutrinários, e muito menos heresias. De acordo com os léxicos de hebraico, a palavra hebraica “naga” pode ser traduzida de diferentes formas, tais como: “alcançar”, “ferir”, “tocar”. Na sua forma verbal, esta palavra ocorre 150 vezes no texto sagrado. De acordo com os hebraístas “o verbo tem o sentido de estender a autoridade sobre alguém, reivindicando tal pessoa como sua ou infligindo-lhe um golpe (Jr 4:10,18; Jó 1:19; 5:19). Deus proíbe que as pessoas atinjam seus profetas (1 Cr 16:22), seu povo (Zc 2:8) ou sua herança (Jr 12:14). Estes são santos e lhe pertencem”.[i]

Três fatos podem ser tirados como conclusão do que disse até este ponto:

1.    A promessa de proteção foi feita primeiramente aos patriarcas (Sl 105:15). Derek Kidner observa: “A referência do versículo 15 é mais especificamente a Gn 20:6-7, onde Deus diz de Abraão: “ele é profeta”[ii]

2.    A promessa de proteção é feita também pelo Senhor a todo o seu povo (Zc 2:8, a mesma palavra hebraica é usada). “Os ungidos” são aquelas vasilhas de Deus, consagradas a seu serviço, “nos quais (como disse Faraó a José, Gn 41:32) está o Espírito de Deus”.[iii]

3.    A promessa diz respeito à proteção física. Hank Hanegraaff sublinha: “as palavras “toqueis” e “maltrateis” pelo contexto, referem-se única e exclusivamente a inflição de dano físico a alguém.  Portanto, o Salmo 105:15, como texto isolado, não impede em absoluto ninguém de questionar os ensinos dos autoproclamados homens ou mulheres de Deus”.[iv]

Dentro do que estamos falando, estas palavras de Hanegraaff merecem nossa atenção. Parece uma coisa lógica: Deus não promete nesta passagem bíblica proteção para aquilo que é fruto de ações irrefletidas e irresponsáveis, e nisto podemos incluir também as palavras e pensamentos de alguém. E ainda: mesmo que nossas mensagens sejam postas no tribunal, assim mesmo não temos o direito de reclamar, pois, a própria Escritura diz que no caso de alguém profetizar, os outros “devem julgar a profecia” (1 Co 14:39).

Autoridade e validade do que se diz

Ao cristianizar os ensinos do filósofo grego Aristóteles, Tomás de Aquino disse: “os argumentos não são aceitos pela autoridade de quem diz, mas pela validade do que se diz”.[v] Ora a verdade não deixa de ser verdade porque é dita por um ateu. Se o que ele diz é verdadeiro, então isso será verdade em todo lugar. Não é a autoridade de quem diz, mas a validade do que se diz. Da mesma forma a mentira não se torna verdadeira somente porque foi um cristão quem a propagou. Continuará sendo uma mentira. Um desvio doutrinário ou uma heresia continuarão sendo sempre um erro, mesmo que eles sejam ensinados pelo mais respeitado dos pregadores cristãos. Quando se questiona, por exemplo, os ensinos de algum pregador não é simplesmente a sua autoridade de Ministro do Evangelho, mas os seus ensinos. É valido aquilo que eles pregam e ensinam?, isto é, tem fundamentação bíblica as suas palavras?

Não quero aqui questionar a autenticidade dos ministros que aqui citei (tais como a ocorrência ou não de milagres, curas, etc em seus ministérios), mas a validade do que eles têm pregado. Benny Hinn, por exemplo, já reconheceu que “pregou heresia” tais como a que diz que a trindade é um composto de nove deuses, e que Adão voava no paraíso. Por outro lado Kenneth E. Hagin em seu livro: “Zoe – a própria vida de Deus”, disse “que nós somos encarnações de Deus assim como foi Jesus de Nazaré”; já Kenneth Kopeland afirmou que Satanás venceu Jesus na Cruz. Hanegraaff ainda observa que “o que distingue os representantes de Deus, acima de tudo, é a sua pureza de caráter e doutrina (Tt 1.7-9; 2.7,8; 2 Co 4.2; cf. 1 Tm 6.3,4). Se um suposto porta-voz de Deus não pode passar no teste bíblico do caráter e da doutrina, nada nos obriga a aceitar suas reivindicações e tampouco ter medo de criticar sua doutrinas antibíblicas”.[vi]

Devemos tomar nota destas palavras: “o teste bíblico do caráter e da doutrina”. Quase todos os abusos de autoridade que já tomei conhecimento, por trás há um caráter deformado ou uma doutrina deficiente que lhe dão suporte. De nada vale imprecarmos maldições sobre àqueles que nos atacam se não estamos sendo fiéis às Escrituras. De nada adianta dizermos “não toqueis nos ungidos do Senhor”, se a unção não está mais conosco. Foi Salomão quem disse: “Como o pássaro que foge, como a andorinha no seu vôo, assim, a maldição sem causa não se cumpre” (Provérbios 26:2).
                           
* José Gonçalves da Costa Gomes, Ministro do Evangelho, bacharel em Teologia pelo Seminário Batista de Teresina, graduado em Filosofia pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Antes de entrar para o Ministério Pastoral de tempo integral ensinou grego, hebraico e teologia sistemática na Faculdade Evangélica do Piauí (FAEPI). É autor do livro: Missões – o mundo pede socorro! (Editora Halley), e articulista da Revista Manual do Obreiro (CPAD). Atualmente é vice-líder da Assembléia de Deus em Altos, PI.


[i] HARRIS, R. Laird & ARCHER, Gleason L. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. Vida Nova, São Paulo.
[ii] KIDNER, Derek. Salmos – introdução e comentário, vol 2. Edições Vida Nova, São Paulo, SP.
[iii] JAMIESON, FAUSSET E BROWN, Comentário Exegético e Explicativo de la Bíblia, tomo 1, El Antigo Testamento. Casa Bautista de Publicaciones, El Paso, Texas – U.S.A.
[iv] HANEGRAAFF, Hank. Cristianismo em Crise, CPAD, op.cit.
[v] AQUINO, Tomás. Verdade e Conhecimento, Editora Martins Fontes, São Paulo.
[vi] HANEGRAAFF, Hank. Op. Cit. P.396.

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